100 anos da viagem de Marie Curie ao Brasil
- Gabriel Carramenha e Rafael Trevizan Bossa
- 30 de jul.
- 7 min de leitura
Atualizado: há 6 dias
A ganhadora de dois prêmios Nobel, com um deles sendo de química e outro de física (feito que até hoje é único: ganhar dois prêmios nobéis em áreas diferentes da ciência), Marie Skłodowska-Curie, visitou o Brasil há 100 anos em uma turnê científica em vários Estados brasileiros. Marie esteve aqui durante um período de 44 dias, onde participou de conferências, encontros acadêmicos e visitas a instituições científicas e médicas. Para tal viagem, a cientista recebeu, em Paris, 25 mil francos do governo francês. Na chegada ao Brasil, recebeu do governo brasileiro o dobro desse valor (Braga; Nascimento, 2017) .
Acompanhada de sua filha Irène Curie, a qual anos mais tarde também seria a ganhadora do Nobel de Química, elas vieram a bordo do navio “Pincio”, que fazia cruzeiros marítimos ligando Brasil e Argentina com a França e a Itália. O interessante dessa viagem é que, na parte inferior do navio, encontravam-se imigrantes italianos, em sua maioria pessoas pobres e com condições ruins de vida em seu país e que buscavam no Brasil a esperança de novas oportunidades laborais (Braga; Nascimento, 2017) , o que contrastava com as pessoas de classe elevada presentes no deck superior do navio.

Fotografias do embarque de Marie Curie no porto de Marselha (França) com destino ao
Brasil. (álbum de família).
Fonte: Museu Curie (Coll. ACJC) Jornal do Commercio (apud Braga e Nascimento, 2017) .
A expectativa de sua vinda era tamanha que os jornais da época a tratavam como uma espécie de entidade, como publicou o Jornal de Recife: “...Devemos, porém, ir levar flores e beijar a mão da peregrina que passa. Ela é uma criatura branca, triste e carinhosa, escrava da ciência e acrisolada no martírio, começado quando morreu seu pobre Pedro.”, (Braga; Nascimento, 2017) .
Um destaque importante a ser feito é que ela já havia sido agraciada com seus prêmios e, portanto, sua visita foi importante para a consolidação das instituições científicas no Brasil. Além disso, sua vinda teve uma importância tremenda na luta pela presença e reconhecimento das mulheres na ciência em território nacional, de modo que foram nomeadas uma Comissão de Mulheres, pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, as quais, em suas respectivas áreas, possuíam relevância a época para acompanhar o período de estada de Marie Curie no Brasil. Entre estas mulheres estavam: Bertha Lutz, Almeida Fialho, Carlota Pereira de Queiroz, entre outras (Braga; Nascimento, 2017) .
A sua chegada ocorreu em 15 de julho de 1926, no porto do Rio de Janeiro, após 13 dias de viagem. Sua presença aqui foi tão bem recebida e reconhecida, que ela foi aceita na Academia Brasileira de Ciências - a primeira mulher a ser aceita na ABC - onde realizou uma comunicação científica (sistema pelo qual pesquisadores criam, publicam, disseminam e analisam os resultados de suas pesquisas). É interessante apontar também que Marie Skłodowska-Curie chegou ao Brasil como uma mulher de extrema importância, em um país onde o machismo prevalecia (e ainda prevalece…) e a população feminina tinha seus direitos negados. Além disso, é curioso que a França, nação que lutou a favor dos direitos civis e do feminismo, foi uma das últimas a conceder às mulheres o direito de participação política, além de ter negado a sua participação como membro da Academia de Ciências Francesas por negarem a integração de mulheres a tais ofícios na época.

Revista da Semana de 24 de julho de 1926, página 18, sendo as fotos das partes de cima referentes ao desembarque de Madame Curie no porto do Rio. Na parte de baixo as fotografias se referem à comemoração do Dia Nacional da França.
Fonte: Braga e Nascimento (2017)
A Escola Politécnica da Universidade Federal do Rio de Janeiro recebeu Marie. Lá, ela ministrou um ciclo de conferências sobre radioatividade e suas pesquisas no Instituto Radium de Paris, que atraiu um grande público interessado pelo assunto e deu grande visibilidade ao mundo acadêmico. Além da visita com viés científico, ela também aproveitou a sua estada no Rio de Janeiro para visitar o Museu Nacional, pontos turísticos, como o Pão de Açúcar, o Corcovado (onde o Cristo Redentor seria construído 5 anos depois), acompanhada pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, e cidades próximas da capital. Além de visitar cidades fluminenses como Vassouras, Barra do Piraí e Petrópolis (Brito, 2026).

Marie Curie e sua filha Irène diante do morro do pão de açúcar, acompanhadas dos drs. Augusto Ramos e Miranda Jordão e a comissão da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino.
Fonte: Museu Curie (Coll. ACJC) (apud Braga e Nascimento, 2017).
Quando perguntada acerca da Comissão de Mulheres que estariam ao seu dispor para momentos relacionados tanto à parte científica de sua viagem, quanto para conhecer os pontos turísticos, Marie Skłodowska-Curie, responde se dizer preocupada, já que imaginava que tais mulheres deveriam ser tão atarefadas quanto ela e sua filha. Entretanto, ela estava ansiosa para conhecer a cidade do Rio (Braga; Nascimento, 2017) .
Ainda no Rio, Marie foi recebida no Senado Brasileiro onde foi recebida com extrema atenção e com honrarias, de modo que durante 20 minutos foi cessado o trabalho no lugar. Em seguida, a convite do governo paulistano, ela se dirigiu à cidade de São Paulo de trem (Braga; Nascimento, 2017) . Lá realizou uma conferência na Faculdade de Medicina, sempre rodeada de diversos intelectuais e nomes importantes da época. Ainda no Estado, conheceu o Instituto Butantan, Estação Biológica do Alto da Serra (atualmente Reserva Biológica do Alto da Serra de Paranapiacaba), onde conheceu a floresta tropical, Águas de Lindóia (na época, distrito de Serra Negra) e passou por cidades como Itapira e Mogi Mirim, porém apenas como paradas durante seus trajetos.
Como qualquer pessoa de importância, existiram problemas com a imprensa. Uma reportagem da Folha da Manhã de 23 de agosto de 1926 revisita, já sem o entusiasmo inicial, a passagem de Marie Curie por São Paulo, destacando tanto a admiração do público — que a via como uma mulher modesta, simples e brilhante ao expor a radioatividade — quanto críticas de parte da imprensa, que demonstrou ressentimento por sua postura reservada, como a ausência de palavras de agradecimento ao Brasil, por estar recepcionando-a, a recusa frequente em ser fotografada e o pouco contato com jornalistas, possivelmente agravados pelo cansaço de uma agenda intensa durante sua viagem ao nosso país. Apesar de apontada como alguém de comportamento distante, ela era capaz de manter conversas longas e convidar pessoas a ficarem próximas a si, além de demonstrar seu apreço pela natureza, uma vez que admirava animais e colhia flores pelos caminhos. Outra crítica feita se estende à sua filha Irène, descrita de forma negativa pelos jornalistas como excessivamente controladora da agenda da mãe, embora outras percepções a retratassem como simpática e atenciosa, sugerindo que os conflitos refletiam mais como tensões pontuais com a imprensa do que um retrato fiel das duas cientistas.
Terminando sua estadia em São Paulo, Mme. Curie dirigiu-se a Belo Horizonte (MG), também de trem. Os trens e outros meios de locomoção disponibilizados a ela eram de luxo e/ou exclusivos e/ou customizados para ela. Na capital mineira, sua principal atividade era a realização de conferências na Faculdade de Medicina da cidade, visto que lá havia o primeiro Instituto brasileiro especializado em terapia radiológica, o Instituto de Radium. Um fato muito interessante é que, dentre os alunos que estavam presentes em suas palestras, havia Pedro da Silva Nava, que se tornaria um famoso poeta e escritor nacional, Juscelino Kubitschek de Oliveira, o qual posteriormente se tornaria presidente da República e João Guimarães Rosa, o qual viria a ser o famoso escritor e autor de “Grande Sertão Veredas”, sendo os 3 estudantes de Medicina na época (Braga; Nascimento, 2017). Como nesse instituto, apesar de ser um grupo novo e inexperiente na época, era o expoente da radioterapia no Brasil, de tal modo que a presença e as palestras de Curie foram de extrema importância para o avanço e consolidação desse centro. Segundo registros da visita, ela teria doado três tubos de rádio-226, que eram usados na curieteparia (braquiterapia nos dias de hoje), os quais foram utilizados por décadas a fim de contribuir no tratamento de tumores cancerígenos no Instituto de Radium (Brito, 2026)

Visita de Madame Curie ao Instituto de Radium em 1926. Fonte: Centro de Memória da
Medicina de Minas Gerais -CEMEMOR- da Universidade Federal de Minas Gerais-UFMG.
Fonte: Braga e Nascimento (2017)
Depois de todas as suas atividades na região, Marie Skłodowska-Curie retorna à cidade do Rio de Janeiro de carro, onde é recebida por uma festa no Theatro Cassino, organizado pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, local onde ocorreu diversas homenagens, apresentações culturais e o recebimento do título de membra honorária da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino a Marie Curie. Ao visitar espaços acadêmicos, Curie simbolizou a presença feminina em um ambiente historicamente masculino e notadamente marcado pela exclusão das mulheres. Em contraste com o reconhecimento aqui no Brasil, Curie enfrentou resistências por ser mulher no continente europeu e não foi aceita na Academia de Ciências da França. Portanto, vale ressaltar que o reconhecimento do Brasil para com Curie trata-se de um marco histórico na ciência do século XX.

Na primeira imagem, acima, Madame Curie, à esquerda, entre Bertha Lutz e Jeronyma
Mesquita no “Theatro Casino”, durante o festival cultural realizado em sua homenagem. Abaixo aparece um dos números apresentados no festival.
Fonte: Braga e Nascimento (2017)
Após o término da sua estada no Brasil Marie Curie realizou os seus agradecimentos à hospitalidade brasileira, era visível a sua emoção em seu último compromisso acadêmico (Braga; Nascimento, 2017) e as despedidas de figuras que acompanharam sua viagem, intelectuais, políticos e etc. A duas vezes vencedora do prêmio Nobel se despediu do Brasil no dia 28 de agosto de 1926. O médico e escritor Pedro Navas a descreveu de tal modo em Beira-Mar(1978): "Era pequena de estatura. Andava de vestido negro, saia arrastando. Apresentou-se sempre com a mesma roupa, mal penteada, mãos vermelhas maltratadas e vi suas botinas de salto baixo tendo abotoadas só o botão de cima", e complementou: "Mas, ensinando, transfigurava-se e as suas palavras nosso anfiteatro iluminou-se ainda mais — como se passassem por suas paredes raios urânicos, centelhas radioativas e faíscas ferromagnéticas" (Bernardo, 2024).
Referências:
BERNARDO, André. A visita ao Brasil de Marie Curie, única mulher a ganhar duas vezes o Nobel. BBC News Brasil, 3 jan. 2024. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/articles/c517y8yvz73o. Acesso em: 22 jul. 2026.
BRAGA, João Pedro; NASCIMENTO, Cássius Klay. A visita de Marie Curie ao Brasil, 2017.
BRITO, José Lucas. 100 anos da visita de Marie Curie ao Brasil: a pioneira da Ciência Nuclear. Instituto de Engenharia Nuclear (IEN), 17 jul. 2026. Disponível em: https://www.gov.br/ien/pt-br/assuntos/noticias/100-anos-da-visita-de-marie-curie-ao-brasil-a-pioneira-da-ciencia-nuclear. Acesso em: 22 jul. 2026.

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