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Wifi

  • Gabrielle Gonçalves e Renato Scarabeli
  • 13 de mai.
  • 4 min de leitura

Muitas vezes, a história da tecnologia é contada por intermédio de nomes de grandes corporações ou “gênios” do Vale do Silício. Porém, para entender como você consegue ler este texto sem estar conectado a um fio, precisamos voltar para a década de 1940 e olhar para uma figura que o mundo conhecia apenas por sua beleza: a atriz austríaca Hedy Lamarr.

Hedy era a personificação do glamour de Hollywood, mas, entre um filme e outro, sua mente funcionava de forma diferente dos padrões. Filha de um engenheiro amador, ela herdou a curiosidade científica desde a infância, mantendo cadernos com diagramas e até um mini-laboratório em sua casa. Durante a Segunda Guerra Mundial, movida pelo desejo de ajudar a derrotar o nazismo, ela utilizou conhecimentos de propriedade intelectual que havia observado ainda na Áustria para conceber um sistema de comunicação que não pudesse ser interceptado. Ela percebeu um problema crítico: os sinais de rádio que guiavam os torpedos aliados eram facilmente bloqueados pelos inimigos através de interferências eletrônicas.


Fonte: BOSCOV, 2015.


Foi então que ela teve uma ideia revolucionária, baseada no conceito de que, se o sinal não ficasse em apenas uma frequência, mas "saltasse" constantemente entre várias, ele seria impossível de interceptar. Para transformar essa teoria em algo prático, ela buscou a colaboração do compositor e pianista George Antheil. Juntos, em meados de 1941, eles desenharam grandes diagramas no tapete da casa de Lamarr, utilizando caixas de fósforo para visualizar o movimento das frequências.


Fonte: PATENTIMAGES, 2026.


O sistema, que eles chamaram de "Sistema de Comunicação Secreta", foi formalmente registrado em 10 de junho de 1941 e a patente nº 2.292.387 foi concedida em 11 de agosto de 1942. A solução técnica para a sincronização dos saltos de frequência foi inspirada diretamente no funcionamento dos pianos.


Apesar do brilhantismo, o processo de aceitação foi marcado pela resistência e pelo preconceito da época. Quando apresentaram a proposta ao Conselho Nacional de Inventores e à Marinha dos Estados Unidos, a resposta foi de ceticismo. Os oficiais consideraram que o mecanismo baseado em rolos de papel "pesado" era "impraticável" para ser instalado dentro de um torpedo comum.


Desestimulados pela atitude da Marinha, Lamarr e Antheil não deram continuidade ao desenvolvimento comercial da invenção na época. Hedy chegou a ser sugerida a "usar seu rosto para vender bônus de guerra" em vez de tentar ser engenheira. A Marinha utilizou o conceito apenas décadas depois, em 1962, instalando tecnologias baseadas nessa ideia em navios após a expiração da patente original, o que acabou neutralizando o ganho financeiro imediato dos inventores.

Agora que conhecemos a origem humana e a motivação por trás dessa descoberta, vamos procurar entender como essa ideia saiu do papel e foi lapidada tecnicamente ao longo das décadas, e saber como o desenvolvimento do hardware e dos protocolos de rede modernos permitiu que o conceito de Hedy Lamarr se tornasse funda nosso mundo conectado.


A criação do Wi-Fi não foi um evento isolado, mas sim o resultado de décadas de avanços em radiofrequência, processamento de sinais e padronização internacional. Comumente dividida em patentes fundamentais CSIRO e as dos padrões IEEE.


O maior problema dos sinais de rádio é que em ambientes fechados, eles não percorrem um caminho em linhas retas. Eles batem em paredes, móveis e teto, criando múltiplos reflexos. Quando esses sinais chegam ao receptor em tempos ligeiramente diferentes, eles sofrem interferência, resultando em dados corrompidos ou perda de conexão.


Fonte: PATENTS.GOOGLE, 2026.

A solução:


Multiplexação por divisão de frequência ortogonal (OFDM)


Em vez de enviar os dados em um único canal largo (sujeito a muita interferência), a tecnologia divide o sinal em vários sub canais estreitos e paralelos. Se um subcanal sofrer interferência, os outros continuam transmitindo, garantindo a integridade dos dados.


O grande diferencial do OFDM é que essas subportadoras são ortogonais entre si. Na prática, isso significa que, embora as frequências estejam muito próximas e até se sobreponham levemente no espectro, elas são matematicamente espaçadas de tal forma que o receptor consegue distinguir cada uma sem que ocorra interferência mútua.


fn= f0 + n  . Δf


Onde Δf é o espaçamento escolhido para garantir que o pico de uma subportadora coincida exatamente com o ponto zero (nulo) das outras.


Processamento Digital de Sinais (DSP) de Alta Velocidade


A patente do CSIRO descreveu uma maneira eficiente de realizar a Transformada Rápida de Fourier (FFT) para codificar e decodificar esses sinais em tempo real, permitindo altas taxas de transmissão (acima de 10 Mbps na época) sem a necessidade de fios.


O Padrão IEEE

O padrão original foi ratificado em 1997, mas a versão que realmente consolidou o uso da tecnologia (OFDM da patente do CSIRO) foi o 802.11a. Hoje, todas essas normas são consolidadas em um único documento mestre, atualizado periodicamente. Portanto o IEEE é a maior organização técnica profissional do mundo, responsável por criar padrões globais para que dispositivos de diferentes fabricantes consigam "conversar" entre si.


A história do Wi-Fi é acima de tudo, uma história humana. Ela começa com a coragem intelectual de Hedy Lamarr uma mulher que, ignorando os limites impostos pela sociedade de sua época, transformou a observação científica em inovação real. Até o conceito de salto de frequência que ela e George Antheil patentearam em 1942 foi a semente de uma revolução que o mundo levaria décadas para compreender.



Referências


BOSCOV, Isabela. Hedy Lamarr. In: https://isabelaboscov.com/2015/11/09/hedy-lamarr/ Acesso em: 14 abr. 2026.


ĐURIĆ, Miloš D. Hedy Lamarr and Frequency Hopping. Belgrade: University of Belgrade, 2021. Acesso em: 4 abr. 2026.


MARKEY, Hedy Kiesler; ANTHEIL, George. Secret Communication System. US Patent 2.292.387, 11 ago. 1942. Disponível em: https://patentimages.storage.googleapis.com/e0/dd/4e/0e04d56d1d7604/US2292387.pdf. Acesso em: 4 abr. 2026.


O'SULLIVAN, John et al. Wireless LAN. Inventores: John O'Sullivan, Graham Daniels, Terence Percival, Robert Diethelm, John Deane. Titular: Commonwealth Scientific and Industrial Research Organisation. https://patents.google.com/patent/US5487069A/en  Depósito: 23 nov. 1993. Acesso em: 23 jan. 1996.




INSTITUTE OF ELECTRICAL AND ELECTRONICS ENGINEERS. IEEE 802.11-2024: IEEE Standard for Information Technology—Telecommunications and Information Exchange between Systems Local and Metropolitan Area Networks—Specific Requirements - Part 11: Wireless LAN Medium Access Control (MAC) and Physical Layer (PHY) Specifications. New York: IEEE, 2024.


 
 
 

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