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A Arte da Sátira e a Ficção Científica de Luciano de Samósata

  • Kaiky S. Santiago e Maria Rita L. Maraschi
  • 9 de jul.
  • 7 min de leitura

A sátira é uma das formas mais antigas e persistentes de expressão artística, presente na literatura ocidental desde os primórdios da civilização greco-romana. Este gênero, que utiliza o humor, a ironia e o exagero para criticar vícios, tolices e instituições, encontra em Luciano de Samósata, escritor do século II d.C., um de seus mais brilhantes expoentes. O que torna Luciano particularmente notável é a forma como ele transpôs a tradição satírica para um território até então inexplorado: a ficção científica, criando obras que, mesmo após quase dois milênios, continuam a desafiar classificações literárias e a provocar reflexões.


Palmyra, na Síria romana (Britannica, 2023)


A sátira como herança antiga

A sátira tem raízes profundas na Antiguidade. Na Grécia, poetas como Arquíloco (século VII a.C.) já empregavam versos mordazes para atacar inimigos pessoais, enquanto na comédia antiga, representada por Aristófanes (século V a.C.), a sátira política e social alcançava as plateias teatrais de Atenas com críticas contundentes a figuras públicas e costumes da época. É de Aristófanes, com sua obra “As Nuvens”, que conhecemos parte da vida de Sócrates, a partir de uma visão satírica.  Na Roma republicana e imperial, o gênero floresceu com Lucílio, Horácio e Juvenal, que consolidaram a sátira como uma forma literária reconhecida, caracterizada por sua liberdade formal e seu propósito moralizante.

Esta tradição de ridicularizar o comportamento humano e questionar verdades estabelecidas encontrou em Luciano de Samósata (c. 125 - c. 181 d.C.) um herdeiro criativo e inovador (Luciano, 2023). Nativo da província romana da Síria e educado na tradição retórica grega, Luciano utilizou seu talento para satirizar não apenas indivíduos, mas correntes filosóficas inteiras, superstições religiosas e a credulidade de seus contemporâneos (Swanson, 1976).


Luciano de Samósata e a invenção da ficção científica satírica

É na obra “Histórias Verdadeiras” que Luciano realiza sua contribuição mais original e duradoura (Luciano, 2016). Neste relato fantástico de viagens, o autor não apenas parodia os relatos de viajantes e historiadores que apresentavam ficções como verdades, como os de Homero, Heródoto e Ctésias, mas também cria o que muitos estudiosos consideram o primeiro texto de ficção científica da literatura ocidental (Swanson, 1976). Neste texto o autor mistura crítica literária com uma narrativa de pura fantasia.


O mundo de Heródoto (Harvard, 2026)


A genialidade de Luciano está na sua abordagem paradoxal à verdade. No prefácio da obra, ele declara explicitamente que tudo o que se segue é mentira, afirmando que só falará uma verdade: que está mentindo (Swanson, 1976). Esta declaração, aparentemente simples, é uma sofisticada jogada retórica e filosófica. Ao admitir a falsidade de sua narrativa, Luciano se diferencia dos autores que pretende satirizar, que apresentavam seus absurdos como fatos. Como observa Swanson (1976), o termo grego alethes (verdadeiro) não significa apenas “factual”, mas também “genuíno” e está etimologicamente ligado à “consciência”. Assim, as “histórias verdadeiras” de Luciano são verdadeiras porque são genuinamente ficções e porque mantêm o leitor consciente de sua natureza fictícia, libertando-o da crença para o pensamento (Swanson, 1976).

Essa mesma consciência lúdica sobre o caráter fictício da narrativa, que permite ao leitor rir das absurdidades sem precisar acreditar nelas, seria recuperada dezenove séculos depois por outro autor que também usou o cenário cósmico para expor as tolices humanas. É justamente esse diálogo entre a antiguidade e a contemporaneidade que se estabelece quando examinamos a obra de Douglas Adams, cujo O Guia do Mochileiro das Galáxias pode ser lido como um herdeiro moderno da tradição inaugurada por Luciano.


O Guia do Mochileiro das Galáxias, um reflexo nos tempos modernos

No ano de 1978, na prestigiosa British Broadcasting Corporation, era transmitida a série The Hitchhiker's Guide to The Galaxy ("O Guia do Mochileiro das Galáxias", em português). O sucesso na rádio possibilitou a Douglas Adams, seu autor, o lançamento em mídia física da franquia, que iria crescer para um total de cinco volumes nos anos subsequentes.

O Guia do Mochileiro das Galáxias segue a história de Arthur Dent, um inglês terrivelmente ordinário, que, quando salvo por seu amigo alienígena, se vê na posição de último homem do Universo. Desta forma, a bordo da nave Coração de Ouro (nome que faz referência ao motor de improbabilidade infinita que a propulsiona, sugerindo que a própria nave é movida por um princípio absurdo e improvável, ironizando a arrogância da tecnologia e da engenharia espacial) ele vive uma sequência de desventuras com os tripulantes da nave, que são: Marvin, o membro mais capaz da equipe, mas por ser um robô dotado de “personalidade autêntica humana” desenvolve depressão severa; Ford Prefect, o excêntrico pesquisador espacial responsável por resgatar Dent; Tricia McMillan, uma astrofísica humana e Zaphod Beeblebrox, um boêmio intergaláctico.


Tripulação da Coração de Ouro (Deaghanc, 2026)


De forma semelhante a artistas consagrados do Reino Unido, como o grupo humorístico Monty Python, Adams faz uso pesado do sarcasmo, dos trocadilhos na língua inglesa e da hipérbole para abordar temas controversos. A exemplo disso, são as palavras de abertura do primeiro livro: 


"Muito além, nos confins inexplorados da região mais brega da Borda Ocidental desta 

Galáxia, há um pequeno sol amarelo e esquecido.

Girando em torno deste sol, a uma distância de cerca de 148 milhões de 

quilômetros, há um planetinha verde-azulado absolutamente insignificante, cujas 

formas de vida, descendentes de primatas, são tão extraordinariamente primitivas que 

ainda acham que relógios digitais são uma grande idéia".


Essa passagem do O Mochileiro lembra muito Voltaire no conto “Micrômegas”, ambos utilizam a perspectiva de um observador extraterrestre para reduzir a pretensão humana ao ridículo, mostrando a Terra e seus habitantes como objetos de curiosidade insignificantes, numa estratégia que combina distanciamento cósmico e crítica mordaz.


Aventuras extraordinárias, problemas comuns 

O Guia do Mochileiro das Galáxias, segundo seu próprio autor, não é uma obra de ficção científica; Adams via a si mesmo como alguém que estava apenas fazendo uso do gênero para contar sua epopéia cômica.

 Sob os robôs depressivos, extraterrestres de duas cabeças, golfinhos interdimensionais e viagens no tempo, as vicissitudes da vida de um aventureiro espacial não diferem muito das de um produtor de rádio (profissão prévia de Arthur) no decadente Império Britânico do final do século XX. Ao contrário de outras obras que tentam contrapor grandes temas em seus conflitos, os inimigos de Arthur Dent nas suas aventuras são frequentemente a burocracia, as políticas incompetentes e a estupidez generalizada que se espalham pelo Universo.


Fingolfin enfrenta Morgoth, exemplo clássico da literatura de conflito entre bem e mal (Denis Gordeev, 2014)


No O Guia do Mochileiro das Galáxias, a Terra não é destruída por uma força maléfica, um imperador ambicioso ou alienígenas eugenistas; ela simplesmente estava no caminho de uma rodovia intergaláctica e os empreiteiros responsáveis por sua construção, os Volgons, haviam avisado previamente sobre a construção, porém os terráqueos não tinham tecnologia o suficiente para compreender a comunicação ou contestar a demolição. Até mesmo fora das democracias ocidentais, do que é chamado de civilização, a anos-luz de distância, a gerência média (a burocracia cotidiana, os administradores de nível intermediário que aplicam regras sem questionar seu sentido ou proporção, personificando a incompetência institucionalizada e a mediocridade que transforma tragédias em meros procedimentos administrativos) é o maior vilão.


A ficção como uma forma de fuga.

Dentre seus iguais, Luciano de Samósata e Douglas Adams, apesar de separados por dezessete séculos na história, se destacam por motivos semelhantes: seus livros não são um convite para o escape da realidade, mas um forte puxão de volta para a mesma.

Sob o domínio romano, fervilhava em contradições: esplendor cultural e filosófico convivia com escravidão, superstiçõs e disputas intelectuais vazias. Contra esse cenário, Luciano empunhou sua sátira não para entreter, mas para desnudar a pretensão humana de possuir verdades absolutas. É nesse contexto que se inscrevem suas “Histórias Verdadeiras”, nas quais as viagens lunares, episódio em que o narrador e sua tripulação são levados a Lua por um redemoinho marinho e ali encontram uma guerra entre rei lunar e o solar por uma colônia no planeta Vênus, funcionam como um microcosmo satírico onde as disputas cósmicas reproduzem, em escala ampliada, as vaidades e os conflitos políticos do mundo romano.

Dezoito séculos depois, o universo de Douglas Adams, embora repleto de naves e robôs, espelhava as mesmas misérias: um império em declínio, a ameaça nuclear e uma tecnologia que, longe de libertar, engessava a vida com novas burocracias. Para Adams, a ficção científica nunca foi sobre o futuro, mas sobre expor a estupidez humana diante de sua própria insignificância.

É nesse ponto que os dois autores se encontram. Tanto as viagens lunares de Luciano quanto as desventuras intergalácticas de Arthur Dent revelam o mesmo diagnóstico: o cosmo não é hostil, mas indiferente, os grandes conflitos do espaço são meros reflexos das mesquinharias terrenas, e a busca por sentido termina, invariavelmente, em anti-clímax, seja na banalidade do número 42, seja na constatação de que deuses e filósofos são tão falíveis quanto os homens comuns.

Ambos autores encontram no riso uma forma de resistência, ao demonstrar as grandiosidades humanas com ironia, eles libertam o leitor do peso da seriedade e o convidam a encarar o absurdo com leveza. A terra pode ser destruída por uma rodovia cósmica, a sabedoria pode ser desmascarada como pedantismo, mas ainda assim resta o humor, ato genuinamente humano que transforma a derrota em arte.

Dessa forma, a verdadeira viagem espacial proposta por Luciano e Adams dispensa foguetes: basta uma caneta afiada e a percepção de que, visto de longe, todo o esplendor e toda a miséria da humanidade cabem em uma piada bem contada. E rir dela, paradoxalmente, nos devolve à realidade mais lúcidos e mais leves, porque a sátira, em sua essência, nunca foi fuga, mas o mais honesto dos espelhos.



Referência

LUCIANO DE SAMÓSATA. Trips to the Moon. [S.I.]: Double9 Books Llp, 2023.


LUCIANO DE SAMÓSATA. True Stories. [S.I.]: BookBeat, 2016. E-book.


SWANSON, R. A. The True, the False, and the Truly False: Lucian´s Philosophical Science Fiction. Science Fiction Studies, v. 3, n. 3, p. 228-239, nov. 1976. Disponível em: http://www.depauw.edu/sfs/backissues/10/swanson10art.htm. Acesso em: 27 jun. 2026


ADAMS, D. The Ultimate Hitchiker’s Guide: Complete & Unabridged. Del Rey, 2010. E-book


 
 
 

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