A Expressão do Corpo: Da Arte à Ciência do Movimento
- Gabrielle G. Souza e Maria E. Medeiros
- há 9 horas
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O corpo humano, desde seus primórdios, tem sido o principal veículo através do qual os seres humanos se expressam. Antes mesmo da linguagem verbal, a comunicação se dava através de gestos e movimentos. Seja no desenho, na dança, na escultura ou no canto, tudo nasce do movimento, do gesto das mãos e do ritmo do corpo. Assim, a história da arte está intrinsecamente ligada à história do corpo, de como ele se move, sente e se expressa. Ao longo dos séculos, os artistas se depararam com um desafio: representar o movimento não era uma simples tarefa de observar a superfície do corpo, mas também de entender o que se esconde sob a pele, os mecanismos invisíveis que tornam os gestos possíveis.
Entre 1489 e 1515, Leonardo da Vinci dedicou-se a uma investigação aprofundada sobre o corpo humano, realizando dissecações de cadáveres e produzindo desenhos minuciosos que revelavam o interior do corpo com uma precisão nunca antes alcançada. Para Leonardo, o corpo era uma “máquina divina”, movida por leis naturais que regem o equilíbrio e o movimento. Como explica o historiador da arte Martin Kemp (2023), Leonardo via o corpo humano como um sistema complexo de forças e engrenagens em harmonia, um modelo de física que explicava o comportamento e a dinâmica do corpo. Em seus estudos sobre a rotação dos braços, o alinhamento das vértebras e a ação dos tendões, Leonardo propôs que cada músculo era uma linha de energia e cada osso, uma alavanca. Sua investigação trouxe à tona uma visão do corpo humano que transcendia o físico e se aproximava da compreensão das leis naturais que governam o mundo.

Figura 1:"Muscolatura dorso-appendicolare" de Leonardo da Vinci.
A busca por compreender o corpo humano não foi exclusiva de Leonardo da Vinci, mas foi compartilhada por muitos outros artistas renascentistas, que se aproximaram da anatomia e da física do movimento em suas obras. Um exemplo notável dessa investigação é o escultor italiano Marco d’Agrate, cujas obras mergulham na complexidade do corpo humano. Em 1562, d’Agrate criou uma das esculturas mais impressionantes do período: São Bartolomeu, exposta na Catedral de Milão. A obra retrata o apóstolo São Bartolomeu, que foi esfolado vivo em razão de seus esforços missionários na Armênia. Ao invés de esconder a dor e a violência do ato, d’Agrate transforma a cena em uma poderosa expressão de força e resistência. A figura do apóstolo, segurando sua própria pele e expondo os músculos, tendões e veias, é um exemplo claro da busca pela compreensão e representação dos mecanismos internos do corpo humano, uma reflexão sobre a dor e a resistência, além de uma meditação sobre a vulnerabilidade do corpo humano.
Historicamente, a visão do corpo no ocidente tem sido marcada por uma certa desconfiança. Desde a Antiguidade, filósofos como Platão viam o corpo como uma “prisão da alma”, uma concepção que reforçou a ideia de que o corpo era a parte “inferior” do ser humano, enquanto a alma era considerada a porção mais nobre e elevada. As religiões antigas, de maneira geral, reforçaram essa divisão, associando o corpo ao mal, à morte e aos desejos carnais, enquanto a alma representava o bem, a pureza e o conhecimento.

Figura 2: Escultura de mármore de São Bartolomeu Esfolado, criada por Marco d'Agrate em 1562.
No século XVII, René Descartes aprofundou essa dicotomia ao comparar o corpo a uma máquina. Para Descartes, embora o corpo fosse um sistema complexo e bem elaborado, ele não deveria ser considerado tão digno de confiança quanto a razão ou o pensamento, reforçando, assim, a separação entre mente e corpo. Essa concepção mecanicista do corpo dominaria grande parte da filosofia e da ciência até os tempos modernos.

Figura 3: ilustração de René Descartes.
No entanto, ao longo do século XX, a compreensão filosófica do corpo passou por uma revalorização significativa. Filósofos como Maurice Merleau-Ponty e Henri Bergson buscaram integrar o corpo à experiência da mente, argumentando que o corpo não deve ser visto como algo separado da mente, mas como uma parte essencial de como percebemos e vivemos o mundo. Gilbert Ryle também criticou a divisão entre mente e corpo, utilizando a expressão “o fantasma na máquina” para ironizar essa separação.
Autores como Friedrich Nietzsche e Antonin Artaud romperam ainda mais com a tradição dualista, propondo novas maneiras de pensar o corpo. Artaud, em particular, desenvolveu o conceito de “corpo sem órgãos”, uma metáfora para um corpo em constante transformação, livre das limitações de regras fixas e do controle racional. Esse novo pensamento também refletiu em práticas artísticas e culturais, onde o corpo passou a ser visto como um campo de resistência, de afirmação e de subversão das normas sociais.
Os movimentos sociais, como o feminismo, também desempenharam um papel fundamental na reconfiguração da percepção do corpo. O famoso slogan “o pessoal é político” encapsula essa ideia: o corpo não é apenas um espaço individual, mas está intrinsecamente ligado às relações de poder na sociedade. A filósofa Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, questionou a ideia de que o fato de nascer mulher determinaria automaticamente o papel social de alguém, cunhando a famosa frase: “não se nasce mulher, torna-se mulher.” Judith Butler, mais tarde, ampliou essa discussão, defendendo que o gênero não é algo fixo, mas construído ao longo do tempo, através de gestos, comportamentos e performatividades. Dessa forma, o corpo humano deixa de ser apenas um objeto biológico e se transforma em um campo de resistência e subversão das normas sociais estabelecidas.
Além de ser um campo de análise para a filosofia e os movimentos sociais, o corpo também desempenha um papel central na arte, especialmente nas práticas de dança e escultura. O movimento corporal, presente nessas práticas, pode ser interpretado como uma manifestação de forças e dinâmicas que se alinham aos princípios estudados pela física. A fluidez, a tensão e o ritmo dos gestos artísticos revelam um delicado equilíbrio entre resistência e impulso, onde a gravidade e o espaço deixam de ser apenas conceitos físicos para se tornarem elementos simbólicos e expressivos.

Figura 4: Corpo em movimento, pintado por Fernando Lúcio.
Ao retratar o corpo em movimento, os artistas não apenas exploram suas próprias limitações e potencialidades expressivas, mas também se aproximam de conceitos fundamentais que governam o comportamento físico, como o controle da energia e o equilíbrio. Dessa maneira, a arte e a ciência se convergem na busca pela representação do movimento, revelando uma interdependência que transcende os limites tradicionais de suas respectivas disciplinas. A arte, ao capturar a dinâmica do corpo, não apenas ilustra o movimento, mas também nos convida a refletir sobre os princípios universais que regem a vida e a natureza humana.
A investigação sobre o corpo humano, desde os primeiros estudos anatômicos de Leonardo da Vinci até as críticas contemporâneas ao corpo como espaço de poder e resistência, reflete uma trajetória de aprofundamento da compreensão humana. O corpo, longe de ser apenas um elemento biológico ou uma máquina descartável, é visto como um campo de expressão, subversão e transformação, seja nas práticas artísticas, filosóficas ou sociais. A arte, ao explorar o movimento e a física do corpo, oferece uma oportunidade única de reconciliação entre o físico e o simbólico, entre a ciência e a estética, ampliando as fronteiras do entendimento humano e enriquecendo as formas de expressão e de questionamento do mundo.
Referências
D’AGRATE, Marco. Saint Bartholomew Flayed. 1562. Mármore, Duomo di Milano. Imagem: [fotografia disponível em Wikimedia Commons]. Licença CC-BY-SA.
DESCARTES, René. L’Homme. Paris: Charles Angot, 1662. Gravura original em domínio público. Disponível em acervos digitais de bibliotecas públicas (ex.: Bibliothèque Nationale de France; Wellcome Collection).
FALBO, Conrado Vito Rodrigues. Movimentos do corpo na arte: discurso, representação, presença e transgressão. Intersemiose – Revista Digital, ano I, v. 1, n. 1, jan./jul. 2012. Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Disponível em: https://revistaintersemiose.com (ou o link correspondente). Acesso em: 17 out. 2025.
GROSS, Melissa; GEAR, Jennifer E.; SEPPONEN, Wendy M. Usando corpos representados em obras de arte renascentistas para ensinar anatomia musculoesquelética e de superfície. Anatomia, Hoboken: American Association for Anatomy, v. 17, n. 1, p. 24–38, 12 ago. 2023. Disponível em: https://doi.org/10.1002/ase.2326. Acesso em: 17 out. 2025.
KEMP, Martin. Revisitando Leonardo sobre os músculos: indícios de biologia matemática e biomecânica. Teoria Biológica, [S.l.], v. 18, p. 7–19, 2023. Disponível em: https://link.springer.com. Acesso em: 17 out. 2025.
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LÚCIO, Fernando. Corpo em Movimento II. 1987. Óleo sobre tela. Disponível em: ArtMajeur — Fernando Lúcio.
VARES, Sidnei Ferreira de; POLLI, José Renato. O dualismo e a concepção de homem em René Descartes. Revista Análise, v. 6, n. 11, 2005. Disponível em: https://revistas.anchieta.br. Acesso em: 17 out. 2025.



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