Astrobiologia e o asteroide Bennu
- Pietro Giuseppe e Rafael Trevizan
- 28 de jan.
- 10 min de leitura
A Astrobiologia é uma área interdisciplinar da ciência que estuda a formação e o desenvolvimento de vida no Universo, deixando sob foco um dos maiores tópicos da ficção científica: a existência de vida extraterrestre. Apesar do último século ter sido marcado por inúmeras pesquisas, hipóteses e até teorias da conspiração, esse é um assunto antigo na história da humanidade inspirado por uma necessidade básica e humana de pertencimento e comunidade. Embora o contato alienígena ainda não seja uma realidade, pesquisas recentes em um asteroide do Sistema Solar revelam um pouco mais sobre os estágios iniciais da vida.
Com o intuito de entender o panorama atual da Astrobiologia, precisamos entender as bases dessa área. A discussão acerca da presença de vida fora do ambiente terrestre é antiga, desde o período helenistico grego (323 a.C.-30 a.C.), marcado pela fusão da cultura grega com a oriental. Na cultura da época as formulações causais de fenômenos naturais e questionamentos filosóficos continham interpretações de que não estamos sozinhos. Metrodoro de Quio, discípulo do atomista Demócrito, já refletia, com o conhecimento existente em sua época, que a vastidão do universo impossibilita que sejamos os únicos seres presentes nele, de modo a escrever, "parece absurdo que em um grande campo só cresça um talo, e que em um espaço infinito só exista um mundo" (Mega Curioso, 2023).
Evidentemente a inquietação humana voltada a compreender tal questão se perpetuou ao longo dos séculos, até chegar no conceito atribuído a Enrico Fermi (1901-1954), que,posteriormente, ficou conhecido como “O paradoxo de Fermi”. Este paradoxo parte do pressuposto de que civilizações extraterrestres avançadas que existam em algum lugar do universo, deveriam possuir a capacidade de viajar entre diferentes sistemas planetários, e, assim, espalhar-se por diversos planetas, incluindo a Terra. Nessa perspectiva, por consequência, como não possuímos evidência dessas formas de vida, a conclusão lógica seria que extraterrestres dotados de tecnologia de ponta não existem.

Imagem 1: Enrico Fermi, prêmio nobel da física 1938 (Fonte: Wikipédia, 2025)
Em uma análise rápida, a conclusão possui uma certa veracidade, porém, ao investigarmos a fundo a indução feita e a história da concepção desse raciocínio, observa-se neles muitas contradições e irregularidades. Primeiro, é interessante salientar que, apesar desse pensamento ser atribuído ao “Pai da Era Atômica”, sua origem diverge muito desse senso atual. A primeira aparição do pensamento que “se não os vemos, eles não existem”, foi articulado pelo astrônomo e astrofísico estadunidense Michael Hart, em 1975, enquanto Enrico Fermi nunca, em seus escritos, citou algo semelhante a isso (Gray, Robert H., 2015). A atribuição vem devido a sua frase “onde está todo mundo?”, contudo, essa se tratava de uma observação informal, a qual foi retirada de contexto, sem nenhum nexo concreto com o paradoxo a ele atribuído (Gray, Robert H., 2015).
A perspectiva trazida por Hart é repleta de preposições falseáveis, um dos problemas é que ele é nichado a formas de vida com um desenvolvimento tecnológico muito aprimorado, de maneira que organismos não inteligentes são excluídos da análise. Ademais, tais seres necessariamente deveriam possuir um espírito curioso e colonizador, semelhante ao que perpassou a história humana, o que não constitui uma premissa universal. Essas são apenas algumas das razões as quais o “Argumento de Hart”, nome historicamente correto ao “paradoxo de Férmi”, não é logicamente válido a todo um escopo de possibilidades de existência de seres vivos fora da Terra, pelo contrário é extremamente restrito a certas condições. Com tal esclarecimento em mente, existem alguns possíveis motivos, mais bem fundamentados, pelos quais não detectarmos vida fora da Terra:
Não coexistência no mesmo período temporal
Diferentes civilizações inteligentes podem chegar a um nível de evolução, a qual possibilite uma possível comunicação entre si em épocas diferentes. Isso é uma possibilidade plausível, visto que o universo possui no mínimo 13,8 bilhões de anos (Serpa, Nilo, 2019).
O único modelo de busca ser a vida terrestre:
Apesar dos atuais esforços em encontrar alienígenas, a própria estratégia de detecção é enviesada pela única composição e forma de seres vivos a qual conhecemos, baseada em carbono (Amaral, L. F., 2023). Dessa maneira, há a impossibilidade ou maior restrição em buscar possíveis seres que se diferem de nós.
Inviabilidade da viagens interestelares:
Viagens interestelares possuem custos gigantescos, os quais mesmo para espécimes com tecnologias avançadas dificulta a sua chegada até a Terra ou suas proximidades. Entre essas dificuldades estão, longos tempos de viagem devido às distâncias, a demanda energética de mecanismos de viagens entre galáxias ou sistemas e o gasto econômico em se fazer tal jornada (Serpa, Nilo, 2019).
O atual foco da astrobiologia ser formas simples de vida:
No presente momento, a astrobiologia de maneira geral tem por maior enfoque a busca de resquícios ou indícios de vida exordial e microbiana. Ou seja, não há uma grande mobilização em buscar e interpretar possíveis sinais de seres inteligentes fora da Terra (Salvan, Ana Paula Henrique, 2024).
Essas são apenas algumas possíveis razões para a ausência de detecção de vida extraterrestre, existem outras que também influenciam, as quais são conhecidas ou não, mas o importante é salientar que a ausência de evidências não implica necessariamente na não existência deles. Entretanto, teorizar sobre formas de vida extraterrestre e as possibilidades de contato é uma tarefa complicada se não entendemos as bases da nossa própria biologia. A formação da vida enquanto a conhecemos na Terra foi um processo duradouro, o qual foi possibilitado por inúmeras condições específicas as quais juntas acarretaram no desenvolvimento de seres vivos.
A jornada da vida na Terra se iniciou a cerca de 3,5 bilhões de anos, quando nosso planeta tinha cerca de 1 bilhão de anos. Assim, a vida o acompanhou na maior parte de sua história geológica, o que faz surgir o questionamento, será que possíveis outras formações de vida ocorreriam “precocemente” em relação ao período de surgimento do respectivo planeta? Apesar da pergunta ser coerente, ela se restringe ao caso da Terra, além de que não há evidências nem estudos científicos sobre esse fato. Nessa ótica, não é possível que se faça uma generalização. Dilemas como esse que podem gerar conclusões ilógicas como a do paradoxo de Fermi.
A nossa existência se dá em decorrência a uma série de fatores, entre eles o fato de a Terra estar localizada na chamada zona habitável do sistema solar, parte do sistema que possibilita a presença de água líquida, elemento fundamental para a existência da vida como a conhecemos, e uma temperatura amena constante, de maneira que não seja muito volátil ou que seja muito extrema.
Há também a zona habitável da Via Láctea, a qual está inserida entre o centro e a extremidade da galáxia, já que no interior pela maior densidade de estrelas ocorre um maior número de explosões de supernovas, bem como exposição extrema raios X proveniente do buraco negro supermassivo em seu centro. Em relação a parte mais externa, o problema advém das estrelas dessa região serem mais velhas e possuírem poucos elementos pesados, o que impossibilita a química complexa que dá origem à vida. Outro ponto importante que liga todos os anteriores é que se necessita permanecer de maneira constante nesta zona por bilhões de anos, ou seja, uma órbita regular nesta região (Las Cumbres Observatory, [s.d.]).

Imagem 2: Zona habitável galáctica (Fonte: NASA/Caltech)
O campo magnético terrestre também é fundamental para o desenvolvimento dos seres viventes, visto que ele dissipa uma parte considerável dos ventos solares, um plasma (gás ionizado) de partículas subatômicas que emana constantemente do Sol. Ademais, isso também ocorre com a radiação cósmica de fundo, a qual tem seus efeitos mitigados pelo mesmo campo.
Outro fator não muito conhecido, é que o gigante gasoso Júpiter possui um papel fundamental para que a vida tenha se formado na Terra. A sua enorme massa ocasiona que faz com que corpos como: asteroides, cometas e outros objetos sejam atraídos para ele, o que evita prováveis colisões com o nosso planeta. Júpiter funciona, pois, como uma espécie de “reciclador do sistema solar”, o que evita impactos constantes na Terra (Las Cumbres Observatory, [s.d.]).
Entretanto, para que a vida na Terra exista é necessário mais do que as condições planetárias ideais, mas sim os compostos necessários. Todos os organismos vivos que conhecemos possuem em sua composição ácidos nucleicos (RNA e DNA), essenciais para o surgimento e desenvolvimento de vida. Eles são formados por um esqueleto de açúcar pentose, bases nitrogenadas e grupos fosfatos. Dessa forma, esses compõem os “blocos de construção” da biologia como a conhecemos na Terra, e o surgimento de vida é uma relação direta à presença desses compostos. Por isso, a busca por vida fora da Terra é um ramo da astronomia que busca detectar em corpos extraterrestres esses blocos de construção, assim como outras proteínas e aminoácidos, a fim de esclarecer o panorama do surgimento de vida.
Recentemente, em 2023, a missão da Nasa OSIRIS-REx (Origins, Spectral Interpretation, Resource Identification, and Security-Regolith Explorer) retornou com amostras coletadas do asteroide carbonáceo (101955) Bennu, do grupo de asteroides Apollo próximo à Terra. A análise dessas amostras indicava grandes composições de carbono e água no asteróide, considerados fatores essenciais para o surgimento de vida. Além disso, foram encontradas também 14 dos 20 aminoácidos utilizados na produção de proteína para a vida na Terra, bem como todas as 5 bases nucleicas que compõem o DNA e RNA.
Individualmente essas descobertas já indicavam um avanço para a astrobiologia, mas um estudo ainda mais recente publicado em dezembro de 2025 indicou a descoberta de açúcares essenciais para a biologia terrestre no asteroide (Barry, 2025) como a ribose, um açúcar composto por 5 carbonos (pentose) que representa o esqueleto do RNA. Dessa forma, todos os compostos necessários para a composição do ácido ribonucleico foram encontrados no asteroide Bennu, que pode ser indicativo para a presença dos blocos de construção da vida em diversos asteroides do Sistema Solar. Além da ribose, também foi encontrada a glucose, outro açúcar considerado essencial por ser uma importante fonte energética para células, além de operar na produção de fibras como a celulose, presente nas paredes celulares.

Imagem 3: blocos de construção essenciais encontrados no asteroide Bennu.
(Fonte: NASA, 2025)
Essas descobertas reforçam uma teoria para o surgimento de vida na Terra de que os ácidos nucleicos e aminoácidos necessários para gerar seres vivos nas condições adequadas podem ter acabado aqui através de quedas de meteoros como Bennu nos estágios iniciais de vida na Terra. Assim, resolvemos o problema de como as bases para a vida surgiram no nosso planeta, levando a crer ainda que o mesmo poderia ter ocorrido com outros astros.
Ademais, a falta de desoxirribose, açúcar esqueleto do DNA e essencial para sua composição, no asteroide Bennu contribui para a teoria do “Mundo RNA”. Apesar do DNA conter todo o material genético e ser mais fundamental na maior parte dos seres vivos que conhecemos, o RNA, que atua como transportador para a síntese proteica, pode se desenvolver em estruturas complexas e atuar na replicação de moléculas. Assim, as amostras da missão OSIRIS-REx podem ser indicativas para que no nosso Sistema Solar houvesse uma abundância de vida, em seus estágios iniciais, baseada no RNA.
Dessa maneira, as amostras do asteroide Bennu mostram que vida, ou pelo menos os componentes para tal, não é uma exclusividade do planeta Terra. No nosso sistema solar já foram encontradas várias possíveis bioassinaturas, em Marte. O rover Perseverance da NASA, na Cratera Jezero, encontrou matéria orgânica e certos minerais possivelmente oriundos de seres microbianos antigos, mas esses também podem ocorrer por causas geológicas. Ademais, ainda no planeta vermelho, a mesma sonda encontrou a vivianite (fosfato de ferro hidratado) e a greigita (sulfureto de ferro) (NASA, 2025), os quais segundo a NASA "pode ter sido uma rica fonte de energia para o metabolismo microbiano”.

Imagem 4: Rover Perseverance na superfície marciana (Fonte: Tek Noticias, 2025)
No ano de 2020, uma equipe liderada pela professora Jane Greaves da Universidade de Cardiff, no Reino Unido, utilizando os telescópios James Clerk Maxwell (JCMT) no Havaí e ALMA (Atacama Large Millimeter/submillimeter Array) no Chile encontraram fosfina presente em nuvens de gás na atmosfera de Vênus. Na Terra a fosfina é um composto que tem origem da decomposição de matéria orgânica ou de produção microbiana, contudo é necessário cautela, tendo em vista que já foram encontrados indícios de fosfina em Júpiter, o qual por ser um gigante gasoso não poderia abrigar vida (CNN Brasil, 2023). Assim, nem toda evidência de compostos os quais são produtos de processos orgânicos são bioassinaturas, de modo que, no caso do planeta irmão da Terra, a própria presença de fosfina tem sido questionada por pesquisas mais recentes e análises posteriores da publicação de 2020.
Entretanto, apesar de a questão da vida fora da Terra parecer restrita aos nossos planetas vizinhos, isso não é necessariamente verdade. O estudo de exoplanetas, ou seja, planetas exteriores ao Sistema Solar, pode fornecer informações importantes sobre a possibilidade de abrigar vida. Quando as condições consideradas essenciais são atingidas (planeta estável na zona habitável da galáxia e do seu sistema estelar, campo magnético, proteção contra meteoros), o estudo do espectro da atmosfera do planeta pode fornecer indicativos e bioassinaturas importantes.
Portanto, a Astrobiologia é uma área promissora que busca desvendar os mistérios da vida no Universo, dando um entendimento maior aos mecanismos que possibilitam a nossa existência. Seja em asteroides, planetas vizinhos ou até fora do Sistema Solar, a busca por outras formas de vida, mesmo que organismos simples, é implacável. Dessa forma, esclarecendo nossas origens, temos mais informações para apurar a possibilidade de vida além da que conhecemos.
Referências:
AMARAL, L. F. et al. A vida como a conhecemos: limites do modelo terrestre na busca por vida extraterrestre. Revista de Astrobiologia e Ciências Planetárias, v. 5, n. 2, p. 45–62, 2023.
ELLINGTON, A. The RNA World. Understanding Evolution, Berkeley, Universidade da Califórnia. Disponível em: https://evolution.berkeley.edu/from-the-origin-of-life-to-the-future-of-biotech/the-rna-world/. Acesso em: 4 jan. 2026.
FURUKAWA, Y. et al. Bio-essential sugars in samples from asteroid Bennu. Nature Geoscience, v. 19, p. 19-24, 2 dez. 2025.
HENRIQUE, A. P. Astrobiologia e a busca por vida microbiana no Sistema Solar. Revista Brasileira de Ensino de Astronomia, v. 12, n. 1, p. 33–48, 2024.
CNN BRASIL. Novos sinais potenciais de vida são encontrados em Vênus. 2023. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/novos-sinais-potenciais-de-vida-sao-encontrados-em-venus/. Acesso em: 29 dez. 2025.
GRAY, R. H. The Fermi paradox is neither Fermi’s nor a paradox. Astrobiology, v. 15, n. 3, p. 195–199, 2015.
KITADAI, N.; MARUYAMA, S. Origins of building blocks of life: A review. Geoscience Frontiers, v. 9, n. 4, p. 1117–1153, jul. 2018.
Las Cumbres Observatory. The galactic habitable zone. s.d. Disponível em: https://lco.global. Acesso em: 29 dez. 2025.
Mega Curioso. Quando foi que os humanos começaram a pensar em vidas alienígenas? 2023. Disponível em: https://www.megacurioso.com.br/estilo-de-vida/127968-quando-foi-que-os-humanos-comecaram-a-pensar-em-vidas-alienigenas.htm Acesso em: 14 de jan. de 2026.
MELENDEZ, J. Astrobiologia e Exoplanetas. Jul. 2018. Apresentação de slides. Instituto de Astronomia e Geofísica, USP. Disponível em: https://astroweb.iag.usp.br/~jorge/astrobiologia_e_exoplanetas_2018_07.pdf. Acesso em: 8 jan. 2026.
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