Avanço Tecnológico e Lixo Eletrônico
- Beatriz M. Silva e Pedro H. M. Montalban
- 7 de jan.
- 6 min de leitura
Vivemos uma era de avanço tecnológico acelerado, onde cada lançamento promete superar e revolucionar o anterior. Computadores, celulares e dispositivos eletrônicos em geral passam por um processo de evolução com um ritmo frenético cada vez mais, alimentados pela demanda de melhor velocidade, qualidade e funções. Essa corrida tecnológica, embora traga benefícios imensuráveis para o lazer, a educação e a comunicação, também gera um aumento expressivo na quantidade de resíduos eletrônicos, tornando o descarte sustentável uma questão urgente.
Nota-se que, apesar das Revoluções Industriais e das inúmeras inovações delas decorrentes — como a revolução eletrônica, o surgimento do computador e dos microprocessadores, a ascensão da internet e da comunicação digital, além das recentes eras da automação —, esse período histórico, que se estende até os dias atuais, continua impactando fortemente o meio ambiente, sendo o lixo eletrônico um de seus principais agentes.
O lixo eletrônico, também chamado de resíduo eletrônico, é definido pela Step Initiative (2014) como todo equipamento elétrico ou eletrônico descartado por seu usuário sem intenção de reutilização. Incluem-se ainda os componentes que chegaram ao fim de sua vida útil ou se tornaram obsoletos. O termo “obsoleto” remete a algo em desuso, frequentemente associado à chamada obsolescência programada — prática comum em grandes empresas que incentiva o descarte prematuro de produtos para estimular o consumo e, consequentemente, o lucro.
Figura 1: Os papéis de consumidor e empresário na Obsolescência Programada.

Fonte: Charge: Diego Novaes/2012.
Atualmente, o lixo eletrônico representa um dos maiores problemas ambientais. A cada dia, toneladas desses resíduos são geradas, e a maioria das pessoas desconhece as formas adequadas de descarte.
Segundo o artigo “Lixo Eletrônico: impactos, descartes e educação ambiental” (2023), os principais impactos do descarte incorreto incluem:
1. Contaminação do solo, da água e do ar: grande parte dos dispositivos contém metais pesados, como chumbo — presente em monitores antigos e prejudicial ao sistema nervoso —, mercúrio — encontrado em pilhas, baterias e telas antigas, podendo causar lesões nos pulmões e no estômago —, e cádmio — usado em baterias recarregáveis, que afeta rins e ossos. Esses elementos contaminam o solo, a água subterrânea e o ar, gerando graves danos à fauna, à flora e à saúde humana.
2. Acúmulo de resíduos volumosos: embora pequenos aparelhos, como celulares, pareçam inofensivos, o descarte de equipamentos maiores, como geladeiras e televisões, representa um desafio logístico. Muitas vezes, esses resíduos acabam em lixões, locais sem impermeabilização do solo e sem tratamento adequado do chorume e dos gases. Assim, o lixo eletrônico se acumula em grandes volumes, de difícil fragmentação e reaproveitamento.
Figura 2: Homem carregando uma carcaça de televisão em meio a uma montanha de resíduos eletrônicos.

Fonte: Maruf Rahman / Pixabay
Até aqui, os impactos já são evidentes — talvez até pareça que estamos falando do óbvio. Mas, apesar de ser um problema amplamente conhecido, refletir sobre ele e discutir possíveis soluções continua essencial para reduzir seus efeitos.
De acordo com Ferreira, Silva e Galdino (2010), algumas alternativas possíveis incluem:
1. Reciclagem: consiste em separar os objetos conforme sua classificação (papel, plástico, vidro, metal, orgânico, madeira, resíduos perigosos, hospitalares, radioativos e não recicláveis) e pelo material que os compõem, preparando-os para serem reutilizados como matéria-prima. Essa prática reduz a extração de recursos naturais, já que os materiais retornam ao ciclo produtivo, evitando novas retiradas da natureza.
Figura 3: Esquema visual do Código de Cores de Reciclagem e Coleta Seletiva no Brasil.

Fonte: Biocamp
Antes de citar a próxima alternativa, vale destacar um ponto importante: o chamado paradigma econômico-industrial. Segundo Kuhn (1970), um paradigma é um conjunto de realizações científicas universalmente reconhecidas que, por um tempo, fornecem modelos de problemas e soluções para uma comunidade científica. Nesse contexto, a reciclagem de eletrônicos — por meio da manufatura reversa — enfrenta um problema econômico. Embora praticada, ela raramente se sustenta financeiramente, pois o processo exige tecnologia avançada e alto investimento, inviável em muitos países subdesenvolvidos. Em outras palavras, a reciclagem não se encaixa no modelo econômico vigente, pois esse processo não gera lucro imediato e demanda investimento dispendioso. Logo, ela não é priorizada, pois confronta o paradigma que sustenta o sistema econômico atual.
O Brasil, por exemplo, ainda enfrenta grandes desafios neste setor. Curiosamente, o país é recordista mundial na reciclagem de latas de alumínio, conforme dados do gov.br. A explicação é simples: o alumínio tem alto valor de mercado, o que torna sua coleta e reciclagem economicamente viáveis para catadores e empresas. Já no caso dos resíduos eletrônicos — como celulares, computadores e televisores —, o custo é elevado e falta infraestrutura adequada para um processo eficiente.
2. Remanufatura: segundo Shah, Gosavi e Nagi (2009, p. 3), a remanufatura envolve desmontar os produtos em componentes individuais, melhorar o desempenho dos componentes defeituosos e, então, remontar os componentes para reproduzir os produtos. Um exemplo prático é o Programa Computadores para Inclusão, do Governo Federal, que recondiciona computadores para políticas de inclusão digital. Os dispositivos que não podem ser reutilizados têm seus componentes aproveitados ou destinados à reciclagem.
Figura 4: Laboratório de informática montado com computadores recondicionados doados ao CRC.

Fonte: Roberto Guedes
Se a remanufatura representa uma alternativa viável para reverter parte do ciclo descartável dos eletrônicos, é importante observar como setores específicos — como a indústria de jogos digitais — exemplificam com clareza as dinâmicas de consumo acelerado que alimentam o problema do lixo eletrônico em escala global.
A indústria de jogos digitais ilustra de maneira clara como o avanço tecnológico pode gerar um impacto significativo no volume de lixo eletrônico produzido no mundo. Desde os primeiros consoles, lançados ainda na década de 1970, até os sistemas atuais de última geração, cada nova geração de hardware exige componentes mais potentes e complexos. Tecnologias como ray tracing, resolução 4K e monitores de alta taxa de atualização elevam constantemente a necessidade por placas de vídeo, processadores e memórias com desempenho superior.
Esse ciclo contínuo de inovação, porém, tem um custo ambiental. Dispositivos com apenas alguns anos de uso rapidamente se tornam obsoletos, pressionados pelo lançamento de modelos mais modernos. Jogadores e entusiastas, muitas vezes motivados por campanhas publicitárias e pela busca por uma experiência visual imersiva, substituem equipamentos que ainda funcionam por versões mais recentes. Como resultado, placas gráficas, consoles e acessórios descartados passam a integrar uma parcela cada vez maior dos resíduos eletrônicos globais.
Vale destacar também que o mercado de hardware opera em ciclos curtos de renovação. Fabricantes lançam novas gerações de produtos em intervalos de dois a três anos, criando uma percepção de defasagem tecnológica entre os consumidores. A combinação entre inovações incrementais e estratégias de marketing bem estruturadas gera um fluxo quase ininterrupto de substituição de dispositivos, agravando o problema do descarte.
Deste modo, compreende-se que o avanço tecnológico desregulado, impulsionado pela obsolescência programada, estabeleceu o lixo eletrônico como um dos dilemas ambientais mais urgentes do século XXI. A simples geração de inovações sem a devida infraestrutura de descarte ou incentivo à reutilização configura uma externalidade negativa de grande magnitude. Embora a reciclagem enfrente barreiras paradigmáticas e financeiras, e a remanufatura demonstre ser um caminho promissor, a sustentabilidade do ciclo de vida dos eletrônicos deve ser um imperativo regulatório e industrial. É crucial que o design de produtos incorpore a logística reversa como critério central, redefinindo o valor intrínseco de um produto para além de sua função imediata. Somente por meio de políticas que alinhem o desenvolvimento tecnológico à responsabilidade ambiental será possível mitigar a contaminação ecotoxicológica e garantir que o progresso não comprometa irremediavelmente a saúde planetária.
Bibliografia:
BRASIL. Ministério das Comunicações (MCom). Programa Computadores para Inclusão. Brasília: MCom. Disponível em: https://www.gov.br/mcom/pt-br/acesso-a-informacao/acoes-e-programas/programas-projetos-acoes-obras-e-atividades/computadores-para-inclusao-1. Acesso em: 29 nov. 2025.
BRASIL. Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA). Índice de reciclagem de latas de alumínio chega a 99% e Brasil se destaca como recordista mundial. Brasília: MMA. Disponível em: https://www.gov.br/mma/pt-br/noticias/indice-de-reciclagem-de-latas-de-aluminio-chega-a-99-e-brasil-se-destaca-como-recordista-mundial. Acesso em: 29 nov. 2025.
FERREIRA, G. S.; SILVA, C. V.; GALDINO, W. M. RECICLAGEM DE LIXO ELETRÔNICO. In: Artigo Científico. [S.l.: s.n.], 2010. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/277126930_RECICLAGEM_DE_LIXO_ELETRONICO. Acesso em: 29 nov. 2025.
KUHN, Thomas S. A estrutura das revoluções científicas. 5. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo, 1970.
SHAH, S.; GOSAVI, A.; NAGI, K. A machine learning approach to optimise the usage of recycled material in a remanufacturing environment. In: Proceedings of the 2009 IEEE International Conference on Automation Science and Engineering (CASE), Bangalore, Índia, 2009. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/228798831_A_machine_learning_approach_to_optimise_the_usage_of_recycled_material_in_a_remanufacturing_environment. Acesso em: 29 nov. 2025.
STEP INITIATIVE (StEP). StEP White Paper: One Global Definition of E-waste. [S.l.: s.n.], 2014. Disponível em: https://www.step-initiative.org/files/_documents/whitepapers/StEP_WP_One%20Global%20Definition%20of%20E-waste_20140603_amended.pdf. Acesso em: 29 nov. 2025.
VIEIRA, F. A. et al. Lixo Eletrônico: impactos, descarte e educação ambiental. In: Artigo Científico. [S.l.: s.n.], 2023. Disponível em: https://www.researchgate.net/publication/383763548_Lixo_eletronico_impactos_descarte_e_educacao_ambiental. Acesso em: 29 nov. 2025.



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