CANETAS EMAGRECEDORAS E O CULTO À MAGREZA EXCESSIVA
- Beatriz Miranda Silva e Geovana Nabas Vicente
- 1 de abr.
- 6 min de leitura
Nos últimos 20 anos, o Brasil registrou um crescimento de 118% nos casos de obesidade, conforme apontam os levantamentos do Sistema Nacional de Vigilância em Saúde (SNVS). Em consonância com esse cenário, dados recentes do sistema de vigilância Vigitel revelam que 62,6% dos adultos nas capitais brasileiras estão acima do peso e 25,7% vivem com obesidade. Ressalta-se que o aumento do excesso de peso ocorre, majoritariamente, entre adultos jovens. Esse fenômeno pode ser atribuído a diversos fatores, como o aumento do sedentarismo (impulsionado pelo uso excessivo de telas digitais), o consumo de alimentos ultraprocessados e a desregulação do sono. Somam-se a isso as exaustivas rotinas urbanas e de trabalho, cuja carga horária e desgaste mental frequentemente inviabilizam as condições psicológicas e financeiras necessárias para a adoção de hábitos saudáveis. Diante de todos esses desafios, e como uma alternativa para o controle ou até mesmo para a superação dessa epidemia, as "canetas emagrecedoras" surgem como uma intervenção terapêutica altamente promissora.
No vídeo “O paradoxo da obesidade” (IAMARINO, 2026) o pesquisador Átila Iamarino menciona que a conotação de status e a definição do “padrão” a ser alcançado também se refletem na estética. Corroborando essa ideia, o estudo "Será a Miss América o modelo de subnutrição?" (RUBINSTEIN; CABALLERO, 2000) concluiu que, entre as décadas de 1970 e 1980, a maioria das mulheres eleitas como ideais de beleza possuía um Índice de Massa Corporal (IMC) abaixo da definição de subnutrição da OMS — curiosamente, durante um período em que a população em geral se tornava mais obesa. Em contrapartida a essa pressão histórica, surgiu o movimento “Body Positive”, que tem como pauta a aceitação do próprio corpo. É justamente em meio a essas tensões e mudanças de perspectivas sobre os padrões estéticos que a fama das canetas emagrecedoras ganha força. Nesse contexto, elas acabam entrando como um “refúgio” e uma solução rápida para essa problemática na atualidade.
Do ponto de vista farmacológico, e de acordo com documentos governamentais, medicamentos como o Mounjaro são compostos pela tirzepatida, um fármaco agonista. Segundo Herkov e Gold (2013), um agonista é uma substância química que se liga a um receptor celular no corpo, ativando-o e imitando a função de uma substância natural para obter uma resposta biológica. A ação da tirzepatida melhora a sensibilidade à insulina, retarda o esvaziamento gástrico e reduz a ingestão de alimentos, promovendo uma prolongada sensação de saciedade. Ao proporcionar uma digestão mais lenta e um controle glicêmico eficiente, o medicamento contribui para a redução da ingestão calórica e, consequentemente, para a perda de peso.
Figura 1 - Injeção de Mounjaro, medicamento para tratamento de diabetes mellitus tipo 2.

Fonte: Sandy Huffaker for The Washington Post via Getty Images
Para pacientes com diabetes, incluindo os insulinodependentes, a medicação atua como um pilar fundamental no tratamento. A regulação adequada do açúcar no sangue gera um comportamento metabólico mais estável, evitando picos glicêmicos. Cabe destacar que oscilações acentuadas de glicose fazem o corpo entrar em um estado de alerta, desencadeando sintomas como o aumento exacerbado da fome. Ao expandir sua aplicação para além do diabetes, o Mounjaro consolida-se também como uma substância de grande relevância clínica para pacientes com obesidade, uma vez que seus mecanismos de lentificação digestiva e controle do apetite favorecem ativamente a perda de peso sustentada.
Entretanto, quando foi que esse tipo de medicamento deixou de ser um tratamento para diabetes e se tornou o mais profundo símbolo da magreza excessiva? Quem foi o responsável por transformar um fármaco favorável para obesos em um aliado à anorexia? Essas são perguntas em que já se pode imaginar a resposta: a mídia. Estima-se que o berço da popularização de canetas emagrecedoras como Ozempic, e, posteriormente Monjauro, datam de junho de 2025, quando deu-se início a sua comercialização no país. Esse movimento foi intensificado pela atuação de influenciadores digitais e celebridades, que passaram a associar o uso do Monjauro e similares como porta de entrada para a magreza excessiva: a cultura adorada em redes sociais como Instagram e TikTok. Assim, a combinação perfeita entre eficácia percebida, facilidade de acesso e pressão estética contribuiu para que esses medicamentos se consolidassem como uma tendência, especialmente entre o público jovem (Baroni et al., 2025; Souza et al., 2024).
O cenário piora ao observar que as aplicações desse medicamento são feitas por conta própria e sem acompanhamento médico. Segundo o Conselho Regional de Farmácia de São Paulo, cerca de 77% dos brasileiros fazem uso de medicamentos por conta própria, o que aumenta significativamente os riscos de intoxicação e efeitos adversos. No caso do Monjauro, os efeitos mais comuns relatados são “náuseas, vômitos e diarreia”, evidenciando que, mesmo quando utilizados corretamente, já apresentam impactos no organismo. Além disso, é válido ressaltar que ainda não existem estudos suficientes sobre os efeitos a longo prazo desses medicamentos, o que torna seu uso ainda mais preocupante fora do contexto clínico. Ao utilizar esses fármacos sem orientação profissional, a população se expõe não apenas a efeitos já conhecidos, mas também a riscos que ainda não foram completamente identificados pela ciência. Um exemplo crítico desse perigo é o aumento expressivo nos casos de pancreatite aguda associados ao uso descontrolado desses fármacos; essa inflamação grave pode, inclusive, servir como gatilho para casos fatais de cânceres pancreáticos (MHRA, 2024). Assim, as canetas emagrecedoras vão muito além de um avanço da medicina: elas mostram como a mídia ainda dita o culto a padrões de beleza irreais e prejudiciais.
O boom em torno desse medicamento não nasce do nada, mas cresce justamente em cima das inseguranças das pessoas com o próprio corpo, vendendo a ideia de que existe um atalho para a magreza excessiva, incentivando seu uso sem orientação e aumentando riscos desnecessários. Por isso, o acompanhamento médico é extremamente essencial - nosso Sistema Único de Saúde (SUS) possibilita acesso gratuito a profissionais como endocrinologistas, sendo uma alternativa real e segura para quem precisa de tratamento sem cair em tendências nocivas, assustadoras e sem respeito ao corpo humano.
Em suma, a atual epidemia de obesidade e a banalização das canetas emagrecedoras refletem as contradições do sistema socioeconômico vigente. Este modelo fomenta um ambiente estruturalmente adoecedor, impulsionado por rotinas exaustivas e pelo consumo de alimentos ultraprocessados, que inviabilizam a realização de hábitos saudáveis para a maioria da população. Em vez de solucionar essas raízes, o mercado e a mídia capitalizam sobre as inseguranças individuais, transformando a saúde e a estética em mercadorias lucrativas. Diante desse cenário, a superação dessa crise exige o fortalecimento do SUS como a principal via de cuidado democrático e seguro. Somente por meio de um acompanhamento especializado e acessível será possível tratar a população de forma ética e integral, desvinculando o verdadeiro bem-estar humano da lógica puramente estética, imediatista e mercadológica.
Referências Bibliográficas:
AGÊNCIA NACIONAL DE VIGILÂNCIA SANITÁRIA (BRASIL). Mounjaro (tirzepatida): bula para o profissional de saúde. Brasília, DF: Anvisa, 2023. Disponível em: https://consultas.anvisa.gov.br/#/medicamentos/. Acesso em: 18 mar. 2026.
BARONI, M. E. D.; MAFFRA, M. M.; OLIVEIRA, A. A. R.; POLAKIEWICZ, R. R. O crescente uso de análogos do GLP-1 para perda de peso: uma ameaça à saúde ou uma solução viável para o controle de peso?. Journal Archives of Health, [S. l.], v. 6, n. 3, p. e2521, 2025. DOI: 10.46919/archv6n3-009. Disponível em: https://ojs.latinamericanpublicacoes.com.br/ojs/index.php/ah/article/view/2521. Acesso em: 17 mar. 2026.
BRASIL. Ministério da Saúde. Vigitel Brasil 2023: vigilância de fatores de risco e proteção para doenças crônicas por inquérito telefônico. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2023. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/saude-de-a-a-z/v/vigitel. Acesso em: 18 mar. 2026.
CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DE SÃO PAULO. Pesquisa aponta que 77% dos brasileiros têm o hábito de se automedicar. [S. l.], 2019. Disponível em: http://www.crfsp.org.br/noticias/10535-pesquisa-aponta-que-77-dos-brasileiros-t%C3%AAm-o-h%C3%A1bito-de-se-automedicar.html. Acesso em: 17 mar. 2026.
GREAT BRITAIN. Medicines and Healthcare products Regulatory Agency (MHRA). GLP-1 receptor agonists and dual GLP-1/GIP receptor agonists: strengthened warnings on acute pancreatitis, including necrotising and fatal cases. London, 2024. Disponível em: https://www.gov.uk/drug-safety-update/glp-1-receptor-agonists-and-dual-glp-1-slash-gip-receptor-agonists-strengthened-warnings-on-acute-pancreatitis-including-necrotising-and-fatal-cases. Acesso em: 23 mar. 2026.
HERKOV, M. J.; GOLD, M. S. Agonist. ScienceDirect, [S. l.], 2013. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/topics/immunology-and-microbiology/agonist. Acesso em: 18 mar. 2026.
IAMARINO, Átila. O paradoxo da obesidade. [S. l.: s. n.], 2026. 1 vídeo (1 h 27 min). Publicado pelo canal Atila Iamarino. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=2Xeaj6CBkYw. Acesso em: 18 mar. 2026.
RUBINSTEIN, S.; CABALLERO, B. Is Miss America an undernourished role model?. JAMA, Chicago, v. 283, n. 12, p. 1569, mar. 2000. DOI: 10.1001/jama.283.12.1569. Disponível em: https://jamanetwork.com/journals/jama/article-abstract/192518. Acesso em: 18 mar. 2026.
SOUZA, Rayane Vitoria Marcos Brum de; COLLI, Luciana Ferreira Mattos; ANDRADE, Leonardo Guimarães de. A influência e os riscos das mídias sociais no uso de medicamentos para emagrecer. Revista Ibero-Americana de Humanidades, Ciências e Educação, [S. l.], v. 10, n. 11, p. 810–822, 2024. DOI: 10.51891/rease.v10i11.16521. Disponível em: https://periodicorease.pro.br/rease/article/view/16521. Acesso em: 17 mar. 2026.

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