Cinema: Arte ou Produto?
- Geovana Nabas Vicente e João Pedro Limonta de Souza
- 21 de jan.
- 6 min de leitura
O cinema teve origem no fim do século XIX, em uma época caracterizada por significativos progressos tecnológicos, tais como a eletricidade, as inovações industriais e a popularização da fotografia. As pessoas ficaram fascinadas com a possibilidade de registrar o movimento, e foi nesse contexto de criação e interesse que os irmãos Lumière, na França, desenvolveram o cinematógrafo, um aparelho que podia filmar, revelar e exibir imagens em movimento. Em 1895, eles exibiram ao público o primeiro curta-metragem lançado, que se tratava de cenas simples do cotidiano, como trabalhadores deixando a fábrica ou um trem chegando à estação, e essas imagens causaram admiração imediata. Era como se pela primeira vez, a vida pudesse ser guardada, repetida e compartilhada de maneira viva.
Figura 1 - Aparelho “Cinematógrafo”

Fonte: Institut Lumière
Figura 2 - Irmãos Lumière e fotografia da chegada de um trem na estação

Fonte: India Midia Group
E é justamente aí que nasce a força do cinema, porque ele não é só uma criação genial, ele é uma extensão do nosso desejo mais humano de sentir e lembrar. O cinema preserva aquilo que desaparece: o sorriso rápido, o gesto tímido, silêncios desconfortáveis, diálogos monótonos, piadas ruins, a luz da tarde batendo no rosto da pessoa amada. Ele transforma momentos comuns em algo que podemos revisitar, como se o tempo, por alguns instantes, obedecesse à nossa vontade. E isso toca profundamente, porque todos temos medo de perder o tempo, de perder o que amamos, e o cinema nasce como uma forma de lutar contra esse desaparecimento.
Além disso, o cinema nos ajuda a entender quem somos. Ao assistir a uma narrativa, vemos pedaços de nós mesmos nos personagens, nos conflitos, na beleza e nas dores mostradas na tela. Ele nos permite enxergar o mundo com olhos diferentes, sentir coisas que não vivemos, viajar por lugares que nunca pisamos. Por algumas horas, podemos viver outras vidas e ainda assim voltar sendo mais nós mesmos. O cinema existe porque precisamos dessa ponte entre o real e o imaginário, desse abrigo onde guardamos tudo o que sentimos e ainda não sabemos dizer.
O cinema fez surgir inúmeros diretores justamente porque cada um encontrou nele um jeito próprio de olhar e transformar o mundo. Desde cedo, ficou claro que a linguagem cinematográfica não era rígida, um diretor fazia filmes com silêncios profundos, outro com cortes rápidos, um buscava poesia nas pequenas ações, outro apostava em grandes espetáculos, alguns contavam histórias íntimas, outros criavam universos inteiros. Essa abertura infinita fez com que cada diretor desenvolvesse um estilo, uma certa sensibilidade, uma forma única de usar a câmera, a luz, o som e o tempo. O cinema se tornou um campo onde personalidades diferentes puderam se expressar com força própria, criando obras que carregam a marca de quem as fez. É por isso que existem tantos diretores importantes, porque o cinema não exige que todos falem da mesma maneira, ele convida cada um a inventar a sua.
Figura 3 - Frame de Alphaville

Fonte: Alphaville (Jean-Luc Godard, 1965)
Jean-Luc Godard foi provavelmente o cineasta que mais entendeu o cinema como uma linguagem, alguém que não apenas filmava histórias, mas interrogava a própria natureza das imagens, dos sons e dos cortes. Ele reinventou a forma de montar um filme, transformando a montagem em pensamento e a câmera em ferramenta de questionamento. Ao romper com narrativas lineares, expor as costuras do cinema e misturar poesia, amor, política, filosofia e o cotidiano, Godard mostrou que filmar não era somente reproduzir o real, mas criar novas formas de percebê-lo. Sua obra expandiu os horizontes do que o cinema pode ser, sendo ensaio, teatro, manifesto, colagem, reflexão ou meramente diversão. Godard influenciou gerações de diretores no mundo inteiro. A importância de Godard está justamente nessa liberdade radical: ele tratou o cinema não como um sistema fechado, mas como uma arte viva, capaz de se reinventar a cada plano. Cada diretor tem sua importância na história do cinema, e cada um deles foram influenciados por outros diretores, e todos filmam de maneiras diferentes, colocando todas suas emoções e suas razões por trás das câmeras, criando assim, uma obra de arte que vale a pena ser apreciada.
Toda essa diversidade de estilos e visões fez o cinema crescer muito rápido e ganhar fama, porque cada novo filme oferecia uma experiência diferente, algo que só podia ser vivido na tela grande. As pessoas passaram a se reunir nas salas justamente para compartilhar essa experiência de ver histórias ganhando vida, de sentir emoções juntas e viver, por algumas horas, um mundo que só o cinema era capaz de criar. O cinema se tornou uma das atividades coletivas mais marcantes da atualidade, reunindo pessoas diante de uma grande tela para acompanhar histórias em movimento. O cinema aproximou indivíduos de diferentes contextos sociais e culturais, sendo muito importante para o desenvolvimento humano, tanto na arte quanto no meio social.
Com o passar do tempo, principalmente após a chegada da televisão, o cinema começou a ter um papel forte no meio político porque ele consegue transmitir ideias de um jeito direto e emocional. Um filme pode mostrar injustiças, questionar governos, provocar debates ou fazer o público enxergar problemas que passam despercebidos no dia a dia. Pela força das imagens e das histórias, o cinema consegue tocar as pessoas e fazê-las pensar, seja defendendo uma causa, criticando algo ou mostrando um ponto de vista que normalmente não aparece. Por isso ele se tornou uma ferramenta importante para expressar mensagens e transformar a maneira como vemos o mundo.
Nesse viés, é nítida a forma como o audiovisual tem se adaptado à contemporaneidade nos últimos anos. Um exemplo claro é o TikTok, uma plataforma globalmente conhecida por seus vídeos curtos. O aplicativo está se consolidando como um polo de descoberta e debate sobre cinema, séries e novelas, onde usuários postam desde trechos e cortes de produções até resenhas, teorias, bastidores ou relatos pessoais de quem assistiu. Assim, é nítido que esse tipo de conteúdo funciona como uma indicação espontânea e coletiva, onde muitos indivíduos têm voltado a assistir obras antigas, descobrem filmes, séries ou novelas novas por indicação da comunidade (CAPUTO, 2023).
A plataforma atua agora como propulsor informal de cultura (seja ela positiva ou negativa), e não apenas como uma rede de vídeos simples. A empresa trabalha para conectar criadores de conteúdo, serviços de streaming, comunidade criativa, proprietários das obras e o público em um mesmo espaço. É devido a isso, que conteúdos nostálgicos, como novelas, filmes antigos, e produções atuais têm encontrado uma oportunidade nova: a plataforma ajuda a reacender o interesse em clássicos e a impulsionar lançamentos. Além de arte, o cinema também é um produto, porque depende de dinheiro, empresas, distribuição e público para existir, ele precisa ser vendido, exibido e consumido, é uma indústria que movimenta muito trabalho e investimento. Mas surge então a questão: é certo tratar o cinema apenas como um produto? Reduzir uma arte complexa e tão maravilhosa a algo feito só para gerar lucro, esquecendo que muitos filmes nascem de ideias, sentimentos e visões que não cabem em planilhas? O problema não é reconhecer o lado comercial do cinema, que é real e necessário, mas sim deixar que ele apague o valor artístico e humano que essa forma de expressão carrega. O fato reacende uma grande questão: até onde isso é vantajoso?
O cinema é, pois, essa união viva de tudo o que é humano, uma invenção tecnológica que nasceu no século XIX, ganhou forma com os irmãos Lumière e se transformou em arte nas mãos de diretores que descobriram infinitos modos de filmar o mundo. Ele se tornou um espaço onde cada cineasta cria sua própria linguagem, onde diferentes estilos convivem, onde a política se expressa, onde os sentimentos ganham forma e onde as pessoas se encontram numa sala escura para sentir juntas. E que, ao mesmo tempo, é uma indústria que precisa sobreviver, um produto que circula e gera lucro, mas que carrega dentro de si algo que nenhuma outra mercadoria tem: a capacidade de nos fazer lembrar, pensar, imaginar e nos reconhecer na tela. O cinema é arte, é produto, é memória, é encontro, e justamente por reunir tudo isso, continua sendo uma das formas mais ricas, completas e humanas de contar histórias.
Referências
ACADEMIA Internacional de Cinema. História do Cinema: da sua origem aos dias de hoje. AICinema, 06 out. 2023. Disponível em: https://www.aicinema.com.br/historia-do-cinema-da-sua-origem-aos-dias-de-hoje/’. Acesso em: 27 de novembro de 2025.
CAPUTO, Gabriela. A estratégia ousada do TikTok para dominar cinema e streaming. Veja, 10 jul. 2023. Disponível em: https://veja.abril.com.br/coluna/tela-plana/a-estrategia-ousada-do-tiktok-para-dominar-cinema-e-streaming/. Acesso em: 27 de novembro de 2025.
GODARD, Jean-Luc. Alphaville. França: 1965.
MARTIN, Marcel. A linguagem cinematográfica. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2003.
NAPOLITANO, Marcos. Cinema: experiência cultural e escolar. In: TOZZI, Devaniil (Org.). Caderno de cinema do professor: dois. São Paulo: FDE, 2009. p. 11–31.
SADOUL, Georges. A história do cinema mundial. Diversas edições.
XAVIER, Ismail. O discurso cinematográfico: a opacidade e a transparência. São Paulo: Paz & Terra, 1984.

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