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Da matriz acadêmica medieval à ilusão meritocrática: origem, exclusão e desafios

  • Beatriz M. Silva e Luiz H. Lima R.
  • há 3 horas
  • 6 min de leitura

Origem das Universidades

De acordo com o historiador dinamarquês Olaf Pedersen, os registros apontam o surgimento das Universidades por volta do décimo segundo século na Europa. É difícil definir alguma Nação pioneira da criação destas instituições de ensino, exatamente por conta da imprecisão dos registros, porém, é certo que a Inglaterra, com Oxford; Paris, com Sorbonne e Itália, com Bolonha, foram cidades pioneiras nessa criação. Olaf observou que as Universidades foram criadas primordialmente como escolas que ofereciam instruções avançadas para as condições daquele tempo, com o objetivo de selecionar grupos de estudantes que poderiam, mais tarde, ocupar posições particulares da sociedade para a aplicação prática desse conhecimento. 


Figura 1: Foto atual da Universidade de Sorbonne após sua reunificação em 2018.

Fonte: Estudar Fora (2023).


Interessante notar como eram divididos os cursos das Universidades medievais, tendo dez cursos ao todo, sendo os três mais prestigiados: Direito, Medicina e Teologia. Restavam ainda outros sete cursos nos quais a sociedade acadêmica da época os nomeou como artes liberales ou artes liberais. Vale a pena resgatar uma rápida etimologia para descrever que com liberais, os acadêmicos queriam dizer, que se tratavam de ferramentas da liberdade, ou seja, conhecimentos que permitiam o indivíduo pensar por si mesmo e navegar pelo mundo. As artes liberais foram desmembradas em dois grupos: Trivium, grupo de três artes (Lógica, Retórica e Gramática), focado na leitura, escrita e oratória, e Quadrivium formado por quatro artes (Aritmética, Geometria, Música, Astronomia), focado no estudo de números e suas aplicações em geral (The Culturist, 2025). 


Figura 2: Representação do Trivium e Quadrivium, onde, no centro, estão representados Sócrates e Platão, autores primordiais do conhecimento ensinado na Europa medieval.

Fonte: History Hit (2019).


No vídeo do canal “Estranha História”, intitulado “Universidades Medievais: como, onde e por que surgiram?” (2021), O historiador Henrique Caldeira pontua que as universidades medievais, apesar da grande inovação de transmissão e conservação do conhecimento em si, não eram vistas como instituições formais. Eram consideradas mais como uma convenção entre estudantes e mestres, as quais, mediante o pagamento de uma taxa para os reinos e igrejas, conseguiram um espaço para praticar as atividades ou até mesmo obter licenças que permitiam o ensino daquele conteúdo sem restrição. O espaço era simples ao ponto de o cômodo de estudo ser uma sala fechada com o piso coberto de feno (para que os estudantes pudessem sentar e tomar notas), com o mestre educador transmitindo esse conhecimento através da oratória ou da leitura de escribas (sem o uso de lousas).


Figura 3: Representação de uma aula universitária medieval comum, interressante reparar que na sala os estudantes são todos monges.

Fonte: History Hit (2019).


Aberta para todos que puderem pagar!

Outro aspecto interessante levantado por Caldeira sobre essas convenções de mestres e aprendizes, é o fato que estas universidades eram à priori abertas para todos, todavia, para oficializar sua “matrícula”, era preciso o pagamento de taxas impostos pelo o dono do espaço, geralmente o pagamento era feito para os membros clericais, além do “pagamento” ao mestre pelo o ensino do tema (que era resgatado através de “doações” obrigatórias, porém não eram chamadas de pagamento pela má imagem que se tinha na época pela cobrança em cima do conhecimento).

Os únicos que tinham condições de pagar essas taxas e doações durante todo o período de estudo (que levavam cerca de quatro a cinco anos) seriam somente membros da Igreja, filhos de nobres e burgueses. A historiadora Lilian Aguiar (s.d.) afirma que boa parte do conhecimento medieval vinha das Igrejas que tinham o monopólio de bibliotecas e escolas, concentrando saber e poder. 

Dessa forma, o conhecimento era transmitido majoritariamente do clero para o clero, evidenciando a manutenção de poder e privilégios dentro da comunidade católica e seus parceiros, sem amenizar a baixa mobilidade social do período. Ainda assim, é importante enfatizar a relevância que os monges e a Igreja tiveram no resgate e na conservação de todo esse conhecimento, pois foi através desta instituição que saberes greco-romanos foram traduzidos, copiados e conservados em Bibliotecas, sem os quais milênios de informações teriam se perdido com o passar das eras (veja, por exemplo, o livro e o filme “O Nome da Rosa”, obra que retrata esse contexto medieval).


Figura 4: Monge copista em uma biblioteca, passava o tempo copiando e estudando obras de autores da antiguidade.

Fonte: Rev. Ar. Ev. (2011).


A ilusão meritocrática e a reprodução das desigualdades sociais 

Ao longo da transição para a modernidade, o monopólio institucional do saber não desapareceu, mas reorganizou-se sob novos discursos legitimadores. Se na Idade Média a exclusão do acesso ao conhecimento fundamentava-se abertamente na linhagem de sangue, no status social ou no pertencimento ao clero, a universidade moderna passou a mascarar essas mesmas barreiras econômicas e sociais através do mito da meritocracia.

Sob a premissa de que o acesso e o sucesso acadêmico dependem exclusivamente do esforço individual e do talento, desconsideram-se as disparidades de capital cultural, social e econômico (conforme teorizado por sociólogos como Pierre Bourdieu) acumuladas desde a infância pelos estudantes de classes favorecidas. Dessa forma, a meritocracia opera frequentemente como uma ferramenta ideológica que converte privilégios herdados em "mérito individual", perpetuando o caráter elitista da instituição universitária sob uma roupagem de neutralidade e justiça (Figura 5).


Figura 5: A ilusão do mérito individual: a disparidade de recursos e capital socioeconômico mascarada sob o discurso da meritocracia. 

Fonte: Costa (2014).


Mesmo que nossa contemporaneidade se encontre em um ambiente de alta globalização e mobilidade social aprimorada (embora não perfeita), é observável a persistência dos modelos e interesses construídos pelos fundadores da Instituição. Somente estudantes com condições de superar a barreira econômica existente nas melhores universidades do mundo conseguem ter acesso às melhores oportunidades e a um ensino de qualidade. Mesmo que haja exceções, como em Oxford, onde um grupo pequeno e concorrido de bolsas de estudo permite a entrada de estudantes de baixa renda, o acesso amplo permanece restrito (ESTUDARFORA, 2024).

No contexto brasileiro, em que as universidades de maior prestígio são públicas e gratuitas, contempla-se uma contradição semelhante no baixo acesso da população em geral a esses centros de ensino. A pesquisadora Alice Assis Roza (2023), em estudo sobre a desigualdade no Ensino Superior entre 2011 e 2019, observou que, embora o ingresso de estudantes de baixa renda tenha aumentado, estes ainda constituem uma minoria. A permanência nesses espaços é dificultada pelo fato de que o perfil médio do estudante universitário exige a ausência da necessidade de trabalhar para sustentar a família, dependendo totalmente do apoio financeiro familiar. Roza (2023) aponta que a oferta de cursos em período integral inviabiliza a conciliação entre a graduação e o trabalho, perpetuando o filtro socioeconômico.


Equivalência Epistemológica

Esses mecanismos confirmam o diagnóstico de Boaventura de Sousa Santos sobre a "falsa democratização": a simples abertura formal das portas da universidade não garante acessibilidade nem inclusão real quando a competição ocorre entre sujeitos em posições estruturalmente desiguais. Superar esse modelo requer caminhar rumo ao que o autor chama de equivalência epistemológica. Vale ressaltar que isso não significa desacreditar o rigor do conhecimento científico, mas sim reconhecer que a ciência pode e deve dialogar com outros saberes e vivências. 

A transição de uma "ideia de universidade" para uma "universidade de ideias" exige que a instituição deixe de exigir a anulação cultural de seus estudantes e se torne um espaço de diálogo comunicativo genuíno, no qual sujeitos periféricos participem como agentes ativos da construção do conhecimento.

A Epistemologia do ensino, embora traga uma história fascinante e inspiradora, transmitindo a paixão que a humanidade possui em produzir, construir e transmitir conhecimento, ainda são notadas práticas profundas de exclusão e apagamento cultural, corroborando com a concentração de ensino de qualidade e seu baixo acesso geral. Com isso temos que o estudo e análise da origem das universidades traz a denúncia da exclusão não apenas como um efeito premeditado pelos fundadores europeus, mas contempla também sua influência no modelo internacional da instituição, que contribui para sua conservação.

A transformação do Ensino Superior exige: políticas públicas de permanência física e financeira para estudantes trabalhadores (como auxílios e flexibilização de turnos) e, também, a adoção da equivalência epistemológica.


Referências bibliográficas:

AGUIAR, Lilian Maria Martins de. O poder da Igreja Católica no mundo feudal. Brasil Escola. Disponível em: https://brasilescola.uol.com.br/historiag/o-poder-igreja-catolica-no-mundo-feudal.htm. Acesso em: 17 jul. 2026.

CALDEIRA, Henrique. Universidades Medievais | Como, onde e por que surgiram?. YouTube, 20 abr. 2021. 1 vídeo (9 min). Publicado pelo canal Estranha História Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=ReZPXIAv2jQ. Acesso em: 24 jul. 2026.


COSTA, Fernando Nogueira. Meritocracia. Cidadania & Economia, 7 jul. 2014. Disponível em: https://fernandonogueiracosta.wordpress.com/2014/07/07/meritocracia-2/. Acesso em: 23 jul. 2026.

ESTUDARFORA. Universidade de Oxford: conheça a 1ª universidade em língua inglesa. Estudarfora.org, 08 ago. 2024. Disponível em: https://www.estudarfora.org.br/oxford-university/. Acesso em: 30 jul. 2026.


HISTORY HIT. Who Was a Typical Oxford Student in the 14th Century?. History Hit, 05 fev. 2019. Disponível em: https://www.historyhit.com/who-was-a-typical-oxford-student-in-the-fourteenth-century/. Acesso em: 30 jul. 2026.


PEDERSEN, Olaf. The first universities: Studium generale and the origins of university education in Europe. Cambridge University Press, 1997.


REVISTA ARAUTOS DO EVANGELHO. Monges copistas – A Civilização Ocidental passou por suas mãos… Revista Arautos do Evangelho, ago. 2011. Disponível em: https://revista.arautos.org/monges-copistas-a-civilizacao-ocidental-passou-por-suas-maos/. Acesso em: 30 jul. 2026.


ROZA, Alice Assis de Figueiredo. Ensino superior continua inacessível para estudantes que precisam trabalhar. Jornal da USP, 30 out. 2023. Disponível em: https://jornal.usp.br/diversidade/ensino-superior-continua-inacessivel-para-estudantes-que-precisam-trabalhar/. Acesso em: 30 jul. 2026.


SANTOS, Boaventura de Sousa. Pela mão de Alice: o social e o político na pós-modernidade. São Paulo: Cortez, 1995. Capítulo: "Da ideia de universidade à universidade de ideias".


THE CULTURIST. What Was Medieval University Like?. The Culturist, 2025. Disponível em: theculturist.io. Acesso em: 17 jul. 2026.


 
 
 

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