Desaparecidos na Ditadura: como a antropologia forense ajuda a reconstruir memórias no Brasil
- Maria R. L. Maraschi e Amanda V. R. Valer
- 7 de jul.
- 3 min de leitura
Durante o regime militar (1964–1985), ao menos 434 pessoas foram mortas ou desapareceram por razões políticas, segundo dados da Comissão Nacional da Verdade [desconsiderando o número não sabido de assassinados entre os indígenas e os habitantes da região do Araguaia]. Muitas destas vítimas tiveram seus corpos ocultados por agentes do Estado, o que tornou a identificação uma tarefa difícil e, muitas vezes, negligenciada ao longo das décadas seguintes. É nesse cenário que se encontra a antropologia forense: por meio da análise de ossos, dentes, fragmentos e até da terra ao redor dos restos mortais, especialistas buscam reconstruir identidades, causas da morte e contextos históricos.

Crianças observam o muro pichado com frases contra a ditadura militar, em 1968. Foto: Arquivo Nacional (via Wikimedia Commons)
No Brasil, instituições como o Grupo de Trabalho Perus (criado em 2014) atuam na análise de mais de mil ossadas encontradas em uma vala clandestina no Cemitério Dom Bosco, em São Paulo. A maioria delas pertencem às vítimas da repressão política da ditadura militar e da violência policial. Em 4 de setembro de 1990, uma vala clandestina foi descoberta no Cemitério Dom Bosco, no bairro de Perus, zona norte de São Paulo. No local, foram encontradas 1.049 ossadas humanas, enterradas sem identificação entre os anos de 1971 e 1975, período em que a repressão política estava em seu auge.

Ossadas encontradas em Perus, usada como vala clandestina na época da ditadura | Foto: Luana Dorigon/Ponte.
A suspeita, desde o início, era de que entre os restos mortais estivessem vítimas da ditadura militar, executadas por agentes do Estado e enterradas secretamente para apagar os rastros da repressão. Além de opositores do regime, também havia a possibilidade de corpos de pobres, indigentes e vítimas da violência policial.
Somente em 2014, já durante o governo Dilma Rousseff, foi criado o Grupo de Trabalho Perus (GTP), uma parceria entre o Ministério dos Direitos Humanos, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) e a Secretaria de Direitos Humanos da Prefeitura de São Paulo. O grupo retomou a análise das ossadas com o objetivo de identificar os corpos de desaparecidos políticos e promover reparação às famílias.
Até hoje, o GTP já identificou alguns desaparecidos, como Dênis Casarino e Aluízio Palhano Pedreira Ferreira, mas o número é pequeno diante do total de ossadas. A identificação exige tempo. Além do aspecto técnico, esse trabalho tem um peso simbólico e político. “A identificação é uma forma de reconhecimento da verdade e de reparação às famílias. É também uma maneira de contar a história a partir de quem foi silenciado”, afirma uma pesquisadora do setor. Assim, a identificação dos restos mortais vai muito além de um procedimento científico: representa o reconhecimento da verdade histórica e a possibilidade de reparação às famílias que, por décadas, foram inviabilizadas pela incerteza e pela omissão.

Foto de Antonio Cruz / Agência Brasil.
Essas práticas trazem dignidade às vítimas e desafiam as falsas narrativas que tentaram apagar ou distorcer fatos. Cada fragmento de osso, cada traço genético recuperado é uma vitória para a justiça que tem um testemunho irrefutável contra o esquecimento.
Apesar da sua importância, os avanços são lentos, seja por falta de investimento, estrutura e apoio institucional dos políticos que atrasam o processo. Essa precariedade de estrutura permite que muitas famílias continuem sem respostas, mas, ainda assim, a luta pela memória continua, e os ossos que resistem ao tempo continuam dizendo o que os documentos tentaram apagar.
Recentemente, um prócere da ditadura, Jair Messias Bolsonaro, dizia que quem gostava de osso é cachorro! Para replicar à essa frase neofascista: quem estuda ossos é a ciência para honrar a memória dos caídos e dar paz aos seus familiares eternamente aflitos.
Referências
COMISSÃO NACIONAL DA VERDADE. Relatório final da Comissão Nacional da Verdade. Brasília: CNV, 2014. Disponível em: http://cnv.memoriasreveladas.gov.br. Acesso em: 12 jun. 2024.
CAVALCANTI, Dimas de Andrade. Antropologia Forense e Memória: o caso Perus e a busca por desaparecidos políticos no Brasil. São Paulo: Unifesp, 2018.
FUNDAÇÃO PERUS. A vala clandestina de Perus: investigação e desafios da antropologia forense. São Paulo: Fundação Perus, 2015. Disponível em: http://www.fundacaoperus.org.br. Acesso em: 12 jun. 2024.
MORAN, José. O caso Perus e a identificação dos desaparecidos políticos no Brasil. Revista Brasileira de Antropologia Forense, v. 7, n. 2, p. 120-136, 2019.
MINISTÉRIO DOS DIREITOS HUMANOS (Brasil). Grupo de Trabalho Perus: relatório anual de atividades. Brasília: MDH, 2017.
PIMENTA, Ana Paula. Memória, justiça e ciência: a importância do Grupo de Trabalho Perus na redemocratização brasileira. Revista Direitos Humanos, v. 10, n. 1, p. 55-70, 2020.
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