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Folclore: O Controle Social através do Fantástico

  • Beatriz M. Silva e Maria E. M. Ribeiro
  • 29 de mai.
  • 6 min de leitura

O folclore brasileiro nunca foi apenas um conjunto de histórias criadas para entreter crianças ao redor de fogueiras ou em noites silenciosas no interior. Muito além disso, ele sempre funcionou como uma espécie de sistema coletivo de orientação social. O medo presente nas lendas populares tinha uma função muito importante dentro das comunidades: proteger, ensinar e controlar comportamentos.     Em sociedades onde grande parte do conhecimento era transmitido oralmente, as narrativas folclóricas ajudavam a organizar a vida social, criando limites simbólicos entre o certo e o errado. Como afirma o pesquisador Luís da Câmara Cascudo (2014), o folclore está profundamente ligado à memória coletiva, aos costumes e à forma como um povo interpreta o mundo ao seu redor. 

O medo, nesse contexto, tornava-se uma ferramenta extremamente eficiente. Diferente de regras escritas ou leis formais, as histórias assustadoras despertavam emoções profundas, fazendo com que seus ensinamentos fossem lembrados por muito mais tempo. Segundo Carneiro (2008), o folclore é composto por aquilo que “o povo vê”, “o povo fala” e “o povo acredita”, funcionando como um reflexo direto das vivências sociais e culturais.   Dessa maneira, o pavor provocado pelas criaturas folclóricas ajudava a reforçar normas familiares, religiosas e morais, especialmente em comunidades rurais e tradicionais.

Um exemplo muito forte disso é a lenda da Mula sem Cabeça. A narrativa conta que a mulher que mantivesse um relacionamento amoroso com um padre seria amaldiçoada e transformada em uma criatura monstruosa que vaga durante a noite soltando fogo pelo pescoço. Mais do que uma simples história de terror, essa lenda revela a forte influência da moral religiosa dentro da sociedade brasileira tradicional. A punição sobrenatural servia como uma forma simbólica de controlar o comportamento feminino e reforçar os valores impostos pela Igreja Católica. A mulher que fugisse das normas sociais seria associada ao pecado, ao medo e à monstruosidade.


Figura 1: Mula sem Cabeça


Fonte: Portal dos Mitos (2013)


  Outro exemplo importante é o Lobisomem, uma das figuras mais conhecidas do imaginário popular brasileiro. A lenda do lobisomem frequentemente aparece associada à ideia de culpa, pecado e castigo. Em diversos relatos populares, acredita-se que o sétimo filho homem pode se transformar em lobisomem caso não seja batizado, revelando novamente a forte ligação entre o medo e os valores religiosos. Um estudo sobre a representação do lobisomem no folclore mostra que essa criatura era vista como uma expressão dos medos sociais e das crenças populares relacionadas ao pecado, à danação e à moral cristã.   Além disso, as histórias sobre o lobisomem também serviam como alerta para que crianças e jovens não saíssem durante a noite ou não desrespeitassem determinadas normas familiares.

Essas lendas mostram como o folclore atuava diretamente no controle social. O medo não era apenas um elemento narrativo; ele ajudava a moldar comportamentos. Ao ouvir repetidamente essas histórias desde a infância, as pessoas internalizam valores sociais sem necessariamente perceber. O terror causado pelas criaturas folclóricas criava uma sensação constante de vigilância simbólica, como se o sobrenatural estivesse sempre observando as ações humanas.

Além das questões morais e religiosas, o folclore brasileiro também possui uma forte relação com a preservação da natureza e com a proteção contra perigos reais. O Curupira e o Boitatá são exemplos muito importantes disso. O Curupira, conhecido por seus pés virados para trás, é descrito como o protetor das matas e dos animais. Ele pune caçadores que matam por crueldade ou pessoas que destroem a floresta sem necessidade. Já o Boitatá aparece como uma serpente de fogo que protege os campos e florestas contra queimadas e destruição.

Essas narrativas funcionavam como alertas simbólicos sobre os perigos físicos das matas e, ao mesmo tempo, incentivavam uma relação mais respeitosa com a natureza. Em uma época em que não existiam campanhas ambientais ou leis de preservação, as lendas cumpriam essa função educativa. O medo do castigo sobrenatural ajudava a limitar práticas destrutivas e ensinava a importância do equilíbrio entre o ser humano e o ambiente natural. Assim, o folclore também pode ser entendido como uma forma ancestral de educação ambiental.


Figura 2: Curupira


Fonte: Portal dos mitos (2013)


Como destaca Carlos Rodrigues Brandão (1982), o folclore deve ser entendido como uma linguagem coletiva carregada de símbolos, memórias e identidades culturais.   As lendas não sobrevivem apenas porque são interessantes ou assustadoras, mas porque carregam significados profundos sobre os medos, valores e necessidades humanas. O terror presente nessas narrativas não surge por acaso: ele é uma ferramenta social poderosa, capaz de transmitir ensinamentos de geração em geração de forma muito mais marcante do que simples explicações racionais.

Por essas e outras histórias, notamos que a eficiência do folclore como ferramenta de controle social não reside apenas na criatividade, mas na sua capacidade de despertar emoções profundas que garantem a memorização de normas. Essa conexão entre narrativa e comportamento só é possível porque tais lendas operam sobre bases biológicas preexistentes. Para entender melhor por que o folclore é tão marcante, vale analisar como o cérebro processa o medo e de que forma a evolução moldou predisposições mentais que permanecem até a atualidade. 

Essa ferramenta (o folclore) não é puramente social, pois ela possui mecanismos descritos por Esperidião-Antonio et al (2008) como a neurobiologia das emoções. Temos que o comportamento humano, como vemos atualmente, é o resultado de um longo processo natural que propiciou o desenvolvimento de sociedades e culturas. Isso significa que reações de defesa, como o medo do escuro (já que na pré-história os humanos eram vulneráveis a predadores noturnos) ou o medo de aranha (visto que nossos antepassados conviviam com espécies venenosas) ainda fazem parte de nós. Ou seja, essas reações de defesa que garantiam a sobrevivência, são os mesmos gatilhos ativados pelas narrativas fantásticas. Desta forma, o temor que impedia o desrespeito às normas familiares nas comunidades tradicionais é, no fundo, uma resposta biológica de preservação. 

Deste modo, quando somos levados por estímulos (histórias do folclore) que ativam respostas biológicas de defesa, o aprendizado social se torna muito mais profundo do que somente uma lei ou regra escrita. Isso ocorre porque o folclore utiliza conceitos contraintuitivos que são, segundo Sant'Anna (2019), seres que desafiam as leis da natureza, mas que mantêm propriedades humanas ou animais. As figuras já citadas ilustram bem essa quebra da lógica:  a Mula sem cabeça viola a biologia básica ao exercer funções vitais sem ter a cabeça, enquanto o Curupira desafia a anatomia funcional com seus pés invertidos. 

Essas anomalias prendem a nossa atenção, garantindo que a lição da história — seja sobre comportamento ou natureza — fique gravada na memória com facilidade. Quando isso ocorre, gera um alerta maior e faz com que memorizar a lenda seja muito mais fácil do que lembrar de regras escritas. Por serem marcantes e fáceis de recordar, esses mecanismos sociais acabam sendo perpetuados através de gerações com baixo custo cognitivo.

Por fim, nota-se que o folclore brasileiro possui uma dualidade pedagógica. De um lado, figuras como o Curupira e o Boitatá utilizam o medo para representar o dever do cuidado com o bioma; de outro, lendas como o Lobisomem e a Mula sem Cabeça expõem a repressão da colonização religiosa, na qual o temor é usado para estigmatizar o comportamento marginal ao dogma católico. Mais do que um sistema de controle onde a neurobiologia das emoções foi posta a serviço da ordem social, essas narrativas consolidaram uma força histórica unificadora que moldou o caráter nacional. Ao preservar a memória coletiva através da oralidade, o imaginário brasileiro resistiu à homogeneização cultural externa, mantendo viva a essência das raízes indígenas, africanas e luso-brasileiras sob o instinto de sobrevivência diante do assustador.  




Referências bibliográficas:


BRANDÃO, Carlos Rodrigues. O que é folclore. São Paulo: Brasiliense, 1982. Disponível em: https://www.apartilhadavida.com.br/wp-content/uploads/2017/03/oquefolclore.pdf. Acesso em: 11 maio 2026.


CARNEIRO, Edison. Dinâmica do folclore. São Paulo: Martins Fontes, 2008.


CASCUDO, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro. São Paulo: Global Editora, 2014.


ESPERIDIÃO-ANTONIO, V. et al. Neurobiologia das emoções. Revista de Psiquiatria Clínica, [s. l.], v. 35, n. 2, 2008. Disponível em: https://www.scielo.br/j/rpc/a/t55bGGSRTmSVTgrbWvqnPTk/abstract/?lang=pt. Acesso em: 10 maio 2026.

CURUPIRA. [S. l.]: Portal dos Mitos, 23 mar. 2013. 1 imagem. Disponível em: https://portal-dos-mitos.blogspot.com/2013/03/curupira.html. Acesso em: 13 maio 2026. 


MELO JUNIOR, Claudinei de. A representação do lobisomem nos boletins da Subcomissão Catarinense de Folclore (1949-1952): diálogos entre o folclore brasileiro e a dinâmica histórica. Revista Epígrafe, São Paulo, v. 13, n. 13, 2023. Disponível em: https://revistas.usp.br/epigrafe/article/download/210154/199314. Acesso em: 11 maio 2026.


MULA sem cabeça. [S. l.]: Portal dos Mitos, 20 jan. 2013. Disponível em: https://portal-dos-mitos.blogspot.com/2013/01/mula-sem-cabeca.html. Acesso em: 13 maio 2026. 


SANT'ANNA, J. C. C. A crença religiosa em Dan Sperber. 2019. Dissertação (Mestrado em Filosofia) – Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia, Belo Horizonte, 2019. Disponível em: https://share.google/coWSGpmv66Nm1hX5C. Acesso em: 10 maio 2026.



 
 
 

1 comentário


Geovana Nabas
Geovana Nabas
02 de jun.

Texto muito bem escrito, recomendarei para todos meus colegas de turma!

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