Intoxicação por metanol: Da Toxicologia da Adulteração ao Diagnóstico (CG-EM)
- PETFísica Uem
- 19 de dez. de 2025
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A intoxicação por metanol decorrente da ingestão de bebidas alcoólicas adulteradas tem ganhado destaque na saúde pública devido à sua alta toxicidade. O metanol, um álcool altamente tóxico, é capaz de causar cegueira irreversível, danos neurológicos severos e óbito após a ingestão. Dados do Ministério da Saúde indicaram 246 suspeitas de intoxicação relacionadas ao consumo de bebidas alcoólicas até o início de outubro de 2025, com 29 casos confirmados.
Figura 1: Recipiente de laboratório contendo metanol, substância química de alta toxicidade.

Fonte: Adobe Stock
A detecção do metanol em níveis perigosos é um indicador inequívoco de adulteração intencional, visto que não é um subproduto natural da fermentação, desde que o processo de produção seja conduzido adequadamente. Criminosos adicionam esse álcool, de custo mais baixo, para aumentar o volume ou o teor alcoólico do produto, visando unicamente o lucro. Essa prática de fraude e envenenamento viola a legislação brasileira, como a Lei nº 8.918/94, que exige controle de qualidade e supervisão técnica na indústria de bebidas. A presença de metanol, assim, é resultado de uma conduta criminosa deliberada.
A alta nocividade do metanol aos seres humanos deriva de seu processo metabólico. Diferentemente do etanol, o metanol (ou álcool metílico) não é metabolizado de forma segura pelo organismo; o fígado o converte sequencialmente em formaldeído e, subsequentemente, no potente tóxico ácido fórmico. Estas substâncias atacam o sistema nervoso central e a visão, sendo as responsáveis diretas pela toxicidade e letalidade. Clinicamente, a intoxicação manifesta-se por náuseas, vômito, dor abdominal, visão turva, vertigem e hipotensão. Pequenas quantidades são suficientes para causar quadros graves, e a sobreposição desses sintomas com um mal-estar comum gera o risco de subestimação clínica, o que pode ser fatal, visto que a recuperação exige intervenção médica imediata e específica.
Figura 2: Diagrama da Intoxicação por Metanol: Riscos, Sinais e Efeitos Metabólicos no Organismo Humano.

Fonte: Agência Brasil, 2025.
Para confirmar a presença de metanol no organismo, a técnica padrão-ouro empregada é a Cromatografia Gasosa acoplada à Espectrometria de Massas (CG-EM). Este equipamento oferece alta sensibilidade e especificidade na detecção de substâncias químicas — incluindo álcoois tóxicos — em amostras biológicas. Por ser o método mais confiável para a confirmação ou descarte da presença de metanol, é importante compreender os princípios de funcionamento da Cromatografia Gasosa e da Espectrometria de Massas.
Cromatografia Gasosa (CG):
Para a identificação de metanol, utiliza-se o cromatógrafo gasoso (CG), que pode ser visto na Figura 3. Seu princípio de funcionamento baseia-se na separação de substâncias químicas que são voláteis e semivoláteis (capazes de serem vaporizadas sem se decompor).
O processo é análogo à destilação fracionada, pois ambos separam componentes de uma mistura com base em suas diferenças de volatilidade (pressão de vapor). A principal distinção é que a CG realiza essa separação em microescala, o que não é possível na destilação fracionada.
Figura 3: Fotografia de um cromatógrafo gasoso,acoplado a espectrometria de massas.

Fonte: Universidade Estadual do Norte Fluminense (UENF), s.d.
Funcionamento da Cromatografia Gasosa:
O equipamento é composto por agentes principais: Gás de arraste (ou carregamento), injetor, coluna, detector e software.
Figura 4: Representação esquemática do funcionamento de um cromatógrafo gasoso.

Fonte: HIGHTEC. O que é um cromatógrafo gasoso? s.d.
Gás de Arraste: Gases inertes (geralmente hélio, nitrogênio ou hidrogênio) que empurram a amostra pelo sistema sob pressão controlada. Um fluxo estável é essencial para a consistência da separação.
Injetor: É onde a amostra (normalmente líquida) é introduzida, aquecida e vaporizada imediatamente. O gás de arraste se mistura a esse vapor e o conduz para a coluna.
Coluna: Uma tubulação fina e enrolada, revestida internamente por uma fase estacionária. Ao atravessá-la, os diferentes compostos interagem com a fase estacionária em intensidades distintas, o que provoca sua separação. Eles emergem da coluna em tempos diferentes, chamados tempos de retenção. Parâmetros da coluna (fase estacionária, diâmetro, espessura do filme e comprimento) são cruciais, pois definem a eficiência e a resolução da separação.
Detector: Registra a saída dos compostos da coluna. Cada composto separado gera um pico no sinal, e a intensidade (área) desse pico é diretamente proporcional à quantidade da substância.
Software: Recebe os sinais do detector e produz um cromatograma (gráfico). A interpretação do cromatograma permite a identificação (pelo tempo de retenção) e a quantificação (pela intensidade do pico) dos compostos da amostra, como o metanol.
Em suma, a amostra é vaporizada no injetor e levada pelo gás inerte até a coluna, onde os compostos se separam. Ao sair, cada substância é registrada como um pico no detector, e o software gera o cromatograma para análise.
Espectrometria de Massas (EM):
A Espectrometria de Massas é uma técnica analítica capaz de identificar moléculas com base em sua massa molecular e nos fragmentos gerados durante a ionização. Cada substância produz um padrão único de fragmentação, funcionando como uma "impressão digital química", o que possibilita a identificação precisa dos compostos de uma mistura.
O processo começa com a ionização das moléculas. Em seguida, os íons carregados são acelerados e separados de acordo com sua razão: massa/carga (m/z). O caminho que os íons percorrem é influenciado por campos magnéticos (ou elétricos), permitindo distingui-los. O detector, então, registra essas informações para que seja possível identificar o padrão de fragmentação do composto.
Figura 5: Representação esquemática da espectroscopia de massas.

Fonte: PATYQMC (YouTube, 2021).
Cromatografia Gasosa Acoplada à Espectrometria de Massas (CG-EM):
O acoplamento da CG à EM combina a poderosa capacidade de separação da cromatografia com a alta capacidade de identificação da espectrometria de massas.
Os componentes adicionais no acoplamento são: fonte de íons, analisador quadrupolo e bombas de vácuo.
Figura 6: Representação esquemática de um cromatógrafo acoplado a um espectrômetro de massas.

Fonte: Revista Analytica. s.d
Funcionamento do CG-EM:
Separação e Ionização: As moléculas, após serem separadas pela coluna cromatográfica (CG), entram na fonte de ionização. Ali, são bombardeadas por elétrons de alta energia. Esse impacto remove elétrons das moléculas, transformando-as em íons carregados positivamente e, frequentemente, quebrando-as em fragmentos menores de forma controlada.
Análise de Massas e Vácuo: Os íons entram no analisador de massas, que os separa pela razão m/z. O quadrupolo é um analisador comum, funcionando como um filtro que seleciona íons com massas específicas. Para que este processo ocorra corretamente, o espectrômetro deve operar sob pressões extremamente baixas (vácuo elevado), mantido pelas bombas de vácuo (mecânica e turbomolecular), garantindo que os íons viagem sem colisões até o detector.
Detecção e Identificação: Após a filtragem, os íons chegam ao detector, que registra a quantidade de cada fragmento. O software converte esses sinais em um espectro de massas, que é comparado com bibliotecas de referência.
Figura 7: Gráfico obtido por um cromatógrafo gasoso que identifica presença de álcool e metanol em amostra.

Fonte: TV Globo/Reprodução
Dessa forma, a análise por CG-EM permitiu confirmar rapidamente a presença de metanol em amostras suspeitas com altíssima precisão, auxiliando em investigações sanitárias e prevenindo novos casos.
Assim, quando a intoxicação por metanol é confirmada, o paciente exige atendimento emergencial imediato, com foco em manter as funções vitais, corrigir o desequilíbrio ácido-base, garantir hidratação e preservar o funcionamento dos órgãos.
A estratégia terapêutica central visa impedir a metabolização do metanol em suas substâncias tóxicas, formaldeído e ácido fórmico. Isso é alcançado pela inibição da enzima álcool desidrogenase (ADH). Os inibidores primários utilizados são: Fomepizol (considerado o tratamento ideal devido à sua especificidade e menor incidência de efeitos adversos) e Etanol (compete com o metanol pelo mesmo sítio ativo da enzima ADH).
Em quadros graves, especialmente na presença de acidose metabólica severa ou sintomas neurológicos e visuais intensos, a hemodiálise pode ser necessária para remover o metanol e seus metabólitos diretamente do sangue. Como tratamento complementar, podem ser administrados: Bicarbonato de sódio (para corrigir a acidose) e ácido fólico (folato), tiamina e piridoxina (vitamina B6), que auxiliam na eliminação dos compostos tóxicos.
O quadro é sempre classificado como uma emergência médica, demandando intervenção rápida e especializada. A gestão eficaz dessa crise sanitária sublinha a importância do conhecimento científico — que integra conceitos de biologia, química e física — na proteção da saúde pública. É a ciência que viabiliza a identificação precisa do metanol (via CG-EM), o desenvolvimento de antídotos (como o Fomepizol) e a aplicação de protocolos clínicos essenciais para salvar vidas. As ações emergenciais, como a distribuição de antídotos pelo Ministério da Saúde ao Sistema Único de Saúde (SUS), reforçam a seriedade desses eventos. Portanto, é indispensável reconhecer o papel central da ciência na sustentação da qualidade de vida e a importância incontestável do SUS na proteção da sociedade.
Referências bibliográficas:
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BRASIL. Ministério da Saúde. Brasil registra 29 casos confirmados de intoxicação por metanol após consumo de bebidas alcoólicas. 2025. Disponível em: https://www.gov.br/saude/pt-br/assuntos/noticias/2025/outubro/brasil-registra-29-casos-confirmados-de-intoxicacao-por-metanol-apos-consumo-de-bebidas-alcoolicas. Acesso em: 29 nov. 2025.
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CONSELHO REGIONAL DE QUÍMICA – 12ª Região (CRQ-XII). Contaminação de bebidas alcoólicas por metanol. 2025. Disponível em: https://crq12.gov.br/contaminacao-de-bebidas-alcoolicas-por-metanol/. Acesso em: 29 nov. 2025.
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REVISTA ANALYTICA. A cromatografia a gás acoplada à espectrometria de massas (GC–MS). [S.l.: s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://revistaanalytica.com.br/a-cromatografia-a-gas-acoplada-a-espectrometria-de-massas-gc-ms/. Acesso em: 29 nov. 2025.
UNIVERSIDADE ESTADUAL DO NORTE FLUMINENSE. Equipamento 9 – Cromatógrafo gasoso acoplado à espectrometria de massas. [S.l.: s.n.], [s.d.]. Disponível em: https://uenf.br/cbb/lca/apresentacao/infraestrutura/central-analitica/equipamento-9/. Acesso em: 29 nov. 2025.



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