Mulheres na Física
- Rafaela Lavagnoli e Samuel S. dos Santos
- 27 de out. de 2022
- 4 min de leitura
Os mais importantes feitos científicos, ao longo de muitas e muitas décadas, receberam algumas formas de reconhecimento e notoriedade. Um destes reconhecimentos e, talvez, o mais prestigioso, seja o Prêmio Nobel cujo objetivo é o de homenagear e incentivar a pesquisa científica. Essa honra é concedida desde 1901, e ao todo, os Prêmios Nobel e o Prêmio Sveriges Riksbank em Ciências Econômicas em memória de Alfred Nobel, foram concedidos 615 vezes a 989 pessoas e organizações. [1]
Foram 954 indivíduos e 27 organizações agraciadas com o Prêmio. Dos ganhadores, cientistas mulheres foram premiadas somente 61 vezes, como Marie Curie que o venceu por duas vezes (em duas áreas diferentes do conhecimento: Física e Química). O Nobel de Física laureou, especificamente, 221 cientistas. Nesta categoria foram concedidos prêmios somente a 4 mulheres: Marie Curie (1903), Maria Goppert-Mayer (1963), Donna Theo Strickland (2018), Andrea Ghez (2020). [2]

Essa pequena porcentagem de representatividade feminina, vem permeando o meio acadêmico e científico a tempos. Isso fica evidente quando se analisa que o aumento de pesquisadoras no mundo aumentou nas últimas décadas e, ainda assim, nas últimas duas décadas tivemos quase que o mesmo número de mulheres premiadas (24) que nos primeiros 80 anos do Nobel (30) [3].
Essa defasagem, que diminui o percentual da participação de mulheres à medida que se avança na carreira, é conhecida internacionalmente como ‘efeito tesoura’ ou ‘teto de vidro’, e tem se mantido inalterada em seus percentuais por mais de uma década. A baixa representação feminina nos postos de liderança científica não é uma prerrogativa somente da Física. O percentual de mulheres como membros titulares, por exemplo, da Academia Brasileira de Ciências nas diferentes áreas do conhecimento, apresenta uma baixa representação, como demonstrado na figura 2. Isso ocorre mesmo em áreas como a da Saúde, na qual as mulheres graduadas já são maioria hoje. [1]

As mulheres representam a maioria em todos os níveis de ensino no Brasil. Entretanto, conforme elas avançam na carreira, as disparidades se avolumam. Elas ainda representam a minoria quando se trata dos critérios de institucionalização como pesquisadoras, chegando a 46% dos docentes universitários, 42% dos líderes grupos de pesquisa e apenas 25% dos bolsistas Sênior de Produtividade em Pesquisa (PQ), a mais alta categoria de apoio do CNPq aos cientistas do país. [5]
Esse quadro é recorrente, também pela falta de motivação na permanência acadêmica, relacionada às dificuldades em conciliar a carreira profissional com a vida pessoal. Com o ingresso no mundo do trabalho, a vida particular e doméstica é vista como responsabilidade da mulher, e quando ela opta por sua carreira, sofre inúmeras críticas da sociedade, inclusive em seu proprio meio profissional.[4]
Outro ponto importante é a discriminação no ambiente de trabalho e ao isolamento profissional, uma vez que, muitas vezes, quando elas se mostram capazes, são consideradas como esforçadas. Ao contrário, em relação à aptidão dos homens para as ciências, estes são considerados pela sociedade patronal como inteligentes. Diante deste quadro é necessário resgatar figuras femininas, caídas no esquecimento e aquelas ocultas/invisibilizadas na História da Ciência, para que as novas gerações lembrem-se delas e recordem de seus feitos. [4]
Existem inúmeras mulheres que são referência para a representatividade feminina na Ciência, e este número está crescendo cada vez mais. Dois destes grandes nomes são Augusta Ada Byron King (Figura 3) e Sonja Ashauer (Figura 4). Augusta Ada, conhecida como Condessa de Lovelace, participou do projeto em que foi inventado o primeiro computador programável (por Charles Babbage). É considerada a primeira programadora do mundo, adicionando na invenção de Babbage o algoritmo que calcula a sequência de Bernoulli. [6] [7]
Sonja Ashauer foi a quinta mulher a se graduar em Física no Brasil, pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras (FFCL) da USP. Em 1945 foi à Cambridge no Reino Unido para fazer seu doutorado, sob orientação de Paul Dirac (Nobel de Física de 1933). Foi a primeira mulher brasileira a conquistar o título de doutorado em Física no exterior com a tese Problems on Eletrons and Eletromagnetic Radiation, sobre eletrodinâmica quântica. [8] [9]
Mesmo com muitas adversidades e com a cultura do tempo em que viviam ser ainda mais rígida contra o empoderamento feminino, estas expoentes não deixaram de desbravar o caminho para futuras mulheres, influenciando-as e encorajando-as a seguirem os seus passos. Dessa forma, novas mulheres poderão conquistar mais espaço no meio da Física e de outras áreas do conhecimento científico.


Referências:
[1] Fatos sobre o Prêmio Nobel de Física. NobelPrize.org. Prêmio Nobel Outreach AB 2022. Disponível em:
Acesso em: 17 de outubro de 2022.
[2] BEZERRA, Grasiele; BARBOSA, Marcia C. Mulheres na física no Brasil: Contribuição de alta relevância, mas, por vezes, ainda invisível. Instituto de Física, Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Rio Grande do Sul). Disponível em:
Acesso em: 17 de outubro de 2022.
[3] FOGUEL , Débora. As mulheres e o nobel… o nobel e as mulheres. Academia Brasileira de Ciências, 11/10/ 2020. Disponível em: https://www.abc.org.br/2020/10/11/as-mulheres-e-o-nobel-o-nobel-e-as-mulheres/ Acesso em: 17 de outubro de 2022.
[4] UNIVERSIDADE FEDERAL DA INTEGRAÇÃO LATINO-AMERICANA. Lutas, conquistas e desafios das Mulheres na Ciência. Universidade Federal da Integração Latino-Americana, 3/03/ 2019. Disponível em:
Acesso em: 17 de outubro de 2022.
[5] PANDINI, C.; BARTELMEBS, R.; TEGON, M. A invisibilidade das mulheres na física: um recorte nos últimos 12 anos na produção de eventos e revistas de alto impacto. Revista Brasileira de Ensino de Ciências e Matemática, v. 4, n. 3, 10 ago. 2021. Disponível em:
Acesso em: 24 de outubro de 2022.
[6] GNIPPER, P. Mulheres Históricas: Ada Lovelace, a primeira programadora de todos os tempos. Canaltech. Junho, 2016. Disponível em: https://canaltech.com.br/curiosidades/mulheres-historicas-ada-lovelace-a-primeira-programadora-de-todos-os-tempos-71395/. Acesso em: 25 de outubro de 2022.
[7] POPOVA, M. Como Ada Lovelace, filha de Lord Byron, se tornou a primeira programadora do mundo. Comunidade Programaria. Dezembro, 2016. Disponível em: https://www.programaria.org/como-ada-lovelace-filha-de-lord-byron-se-tornou-primeira-programadora-mundo/ Acesso em: 25 de outubro de 2022.
[8] FACULDADE DE FILOSOFIA CIÊNCIAS E LETRAS (USP). Sonja Ashauer (1923-1948). Departamento de Física. Disponível em: http://acervo.if.usp.br/bio08 Acesso em: 25 de outubro de 2022.
[9] SILVA, O. HECTOR. Memória da Física Brasileira. Sonja Ashauer. Disponível em:
https://hosilva.github.io/memoria/biblio/ashauer/ashauer
Acesso em: 25 de outubro de 2022.

Comentários