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Músicas infantis podem ter críticas sociais? Uma análise da música “A história de uma gata” de Os Saltimbancos.

  • Greicy E. Proença e João F. Côsso
  • 27 de mar.
  • 7 min de leitura

A música é uma forma de expressão revolucionária, quando o ser humano externaliza suas emoções por meio de melodias. Por essa razão temos registros de tantas músicas com críticas sociais, afinal, a sociedade as utiliza para desabafar sobre sua realidade e a raiva contida contra um sistema muitas vezes opressor. Dessa forma, as músicas infantis não escapam dessa narrativa, abordando temas como a desigualdade social, o preconceito, a discriminação, entre outras problemáticas presentes na estrutura social. Dessa maneira, a criança terá um pré desenvolvimento de seu senso crítico e consciência de classe, necessários para uma esperada rebeldia a respeito do comportamento e da organização social em que está inserida. A crítica presente em músicas infantis é metafórica, com uma linguagem lúdica e sensível à criança. Esta ainda está em desenvolvimento e a canção precisa conter uma escrita leve e figurativa, substituindo palavras e narrativas para algo mais próximo de seu mundo lúdico, como animais no lugar dos seres humanos, para invocar vivências de seu universo social, político, econômico e cultural,

Assim, personagens como animais, antes usados para "educar", são colocados em contextos anticonvencionais: os animais passam a ter consciência e a agir de forma a causar estranhamento no leitor, a fim de conquistá-lo pela surpresa, pelo imprevisto. (RUFINO, 2008, p. 122)

As músicas do grupo Os Saltimbancos são um excelente exemplo de críticas sociais em canções infantis, inspirado no conto Os Músicos de Bremen, dos irmãos Grimm, e adaptado por Chico Buarque de Hollanda. Esta música explora questões sociais importantes como a exploração e a injustiça, o que a conectava diretamente com o cenário político do Brasil durante a ditadura militar de 1964-1985, a qual muitos artistas buscaram estratégias para compor suas músicas e burlar as censuras governamentais. Foi dessa maneira que nasceram diversas canções com um forte senso crítico tornando-se um marco cultural infantil brasileiro. O grupo produziu inúmeros musicais, como:

Bicharia (1977) - a história é uma introdução e apresentação dos personagens: Gata, Galinha, Cão e o Jumento. Cada bicho tem uma posição social dentro do sistema, com todos os personagens servindo a um “barão”, uma pessoa que vive dos esforços alheios, consumindo tudo e a todos sem ter a mínima preocupação com os outros animais,


Era uma vez (e é ainda)

Certo país (e é ainda)

Onde os animais eram tratados como bestas

São ainda, são ainda

Tinha um barão (tem ainda)

Espertalhão (tem ainda)

Nunca trabalhava, então achava a vida linda

E acha ainda, e acha ainda



O Jumento (1977) - passa a percepção da posição de oprimido à liberdade. O jumento não é tratado com mordomias, trabalha de graça, não tem nome, não é pirracento, logo é burro de carga do patrão, sem, ao menos, perceber que sua carga aumenta cada vez mais e sem receber o devido valor. Conforme ganha consciência, sua rebeldia cresce e quebra o contrato de servidão e mansidão estabelecido com seu dono, dando-lhe um coice. Retrata o proletariado sempre explorado e constrói paulatinamente uma consciência de tal opressão,  discernindo que, mesmo trabalhando muito e parecendo manso, pode dar coices quando não aguenta mais.


O pão, a farinha, feijão, carne seca

Quem é que carrega? Ih-ó

O pão, a farinha, o feijão, carne seca

Limão, mexerica, mamão, melancia

Quem é que carrega? Ih-ó

O pão, a farinha, feijão, carne seca

Limão, mexerica, mamão, melancia

A areia, o cimento, o tijolo, a pedreira

Quem é que carrega? Hi-ho


A Galinha (1977) assim como em O Jumento narra a exploração do indivíduo,   em específico a mulher pela desvalorização da mesma na sociedade, principalmente em dois papéis atribuídos à mulher historicamente: a reprodução e a alimentação, quando se “passa” da idade reprodutiva não se tem mais utilidade dentro daquele sistema, afinal, sem filhotes não terá futuras galinhas para explorar.

 

A escassa produção

Alarma o patrão

As galinhas sérias

Jamais tiram férias

Estás velha, te perdoo

Tu ficas na granja

Em forma de canja

Ah, é esse o meu troco

Por anos de choco?


Partindo para uma abordagem poética, podemos observar grande riqueza na construção da música A História de Uma Gata, abordando temas sobre liberdade individual, questões de classe e conformismo social. Para entendê-la, é imprescindível conhecer os autores: Luis Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti, com tradução das obras de Chico Buarque, temos uma época das mais bem sucedidas de intercâmbio cultural entre Itália e Brasil. 

Bacalov nasceu na Argentina, mas após casar-se e receber um convite do cantor Claudio Villa para ir a Roma, se encantou completamente pela cidade e pela vida Italiana, onde encontrou terreno fértil para compor suas obras, trabalhando em trilhas sonoras de filmes e músicas infantis junto de grandes artistas dos anos 60-80, como Vinícius de Moraes, ajudando a compôr músicas como O Velho e a Flor e As Abelhas.

Sergio Bardotti era italiano de nascença, grande estudioso de piano e de música, tendo um terreno tão fértil quanto o de Bacalov para produção musical.  Produziu grandes obras junto de outro grande compositor italiano, Sergio Endrigo. A partir de 1969 passou a manter contatos frequentes com Chico Buarque, que vivia exilado na Itália, fugindo do regime militar ditatorial brasileiro, e já era reconhecido como grande ativista político. 

Chico Buarque, nascido em 1944, no Estado do Rio de Janeiro, por sua vez, é um dos mais influentes e importantes artistas brasileiros de todos os tempos, tendo sido uma das grandes figuras que lutaram contra a repressão da ditadura militar. Dentre suas obras, podemos destacar “Construção” e “Chico Buarque de Hollanda”, que resistiram fortemente à censura da época e instigaram os ouvintes a se questionarem sobre a verdadeira face do regime militar, tornando suas obras atemporais.


Figura 1: Luis Enriquez Bacalov e Sergio Bardotti, meados dos anos 70. Fonte: Luis Bacalov, 30/12/25



A fusão do protesto italiano com a tradição da Música Popular Brasileira deu origem a Os Saltimbancos, adaptado do conto Os músicos de Bremen dos Irmãos Grimm, utilizando os animais como metáforas para temas sobre união e liberdade, com Chico incorporando elementos da cultura e realidade brasileira, tornando-a uma grande alegoria sobre a ditadura militar e sobre a união dos oprimidos. O teor infantil da música não foi por acaso, funcionando como ”disfarce”, promovendo reflexão e disseminando ideias sob o radar da censura, em uma época onde qualquer questionamento poderia ser visto como suspeito e conspirativo.

A narrativa da música pode ser entendida de vários escopos dentre os já apresentados. Pensando primeiramente na crítica de classe e no conforto alienante, temos o trecho:


Me alimentaram 

Me acariciaram 

Me aliciaram 

Me acostumaram 

O meu mundo era o apartamento

Detefon, almofada e trato Todo dia filé-mignon


        Onde o “mundo de apartamento” representa a classe alta, alienada pelo próprio conforto, sem importar com o que é importante de fato ou com lutas que aparentemente não dizem respeito à própria vida. Os versos “Me aliciaram” e “Me acostumaram” representam bem a ideia de como o conforto é uma armadilha deliberada para a ignorância, carregando um sentido de sedução, que pode ser colocado em comparação com a realidade humana nas situações em que estamos confortáveis demais para reclamar e perceber os problemas que cercam a sociedade.

Outro tema identificável é o conceito da consciência de classe, colocado pontualmente no refrão, onde o eu-poético (nesse caso, a gata protagonista) explicita como não é necessário nascer com grande riqueza material, mas parte do princípio que todo gato nasce livre, sem depender de nenhum senhor ou senhorio, afirmando a liberdade como direito inato e desprezando a dita hierarquia do “senhor”:


Nós, gatos, já nascemos pobres

Porém, já nascemos livres

Senhor, senhora ou senhorio

Felino, não reconhecerás


Também podemos notar o senso de coletividade, em oposição à utilização de pronomes no singular da primeira estrofe: “Me alimentaram”, “Me acariciaram”; para agora se referir a um coletivo: “Nós, gatos, já nascemos pobres”. Nessa perspectiva, o uso do termo “Felino” pode ser entendido como um resgate à independência dos gatos, que agora são felinos, de modo geral, e não apenas animais domésticos. Nesse contexto, o uso do plural unido a utilização de termos como “Felino” reforça a criação de uma verdadeira identidade coletiva, posteriormente referida como “gataria”, que engloba a experiência comum de alienação e exploração.

A história se desenvolve conforme os versos avançam e, na quarta estrofe, temos um episódio de exclusão: o eu-poético, após sair de sua gaiola confortável e experimentar a liberdade, tenta retornar, porém, é barrado e excluído por não compactuar mais com a segregação que os donos de seu antigo lar concordam, e então acaba abandonado na “portaria”, como dizem os versos a seguir:


De manhã eu voltei pra casa

Fui barrada na portaria

Sem filé e sem almofada

Por causa da cantoria


    O verso “Por causa da cantoria” utiliza de uma metáfora intrigante para demonstrar o posicionamento do eu-poético, a cantoria é justamente o protesto, uma oposição ao conformismo e à ignorância, mas também pode ser entendida como a própria felicidade. Ser expulso por conta da cantoria é o equivalente de ser expulso por exercer sua própria liberdade em prol da felicidade.

Os versos seguem com o eu-poético abandonando a antiga vida, preferindo agora a “gataria” ao invés do filé, demonstrando como uma vida mais simples porém autêntica e feliz é mais interessante que uma vida de luxos completamente vazia de questionamento e liberdade.


Mas agora o meu dia-a-dia

É no meio da gataria

Pela rua virando lata

Eu sou mais eu, mais gata

Numa louca serenata

Que de noite sai cantando assim


Nessa ótica, o verso “Pela rua virando lata” se destaca dos demais, especialmente por seu duplo sentido e pela comparação implícita estabelecida: “pela rua” versus “meu mundo era o apartamento”, “virando lata” versus “Detefon, almofada e trato Todo dia filé-mignon”. O duplo sentido vem quando se analisa os sentidos literal e figurado, “virar lata” é justamente o ato que animais de rua fazem para buscar comida, porém, o termo também pode ser entendido como uma transformação, literalmente “virar lata”, tornar-se algo fútil em comparação ao luxo do apartamento, abrir mão do conforto para desfrutar da vida e da liberdade de fato.

A análise da música demonstra de forma contundente que músicas infantis podem sim conter críticas profundas e bem pontuadas. Ao transcender o simples entretenimento, a obra torna-se um instrumento de reflexão tanto político, quanto social, mostrando como obras infantis não precisam ser superficiais nem alienadas. Pelo contrário, obras desse tipo servem como um espaço fértil para o debate de questões sociais e políticas, tratando de forma metafórica os ideais de justiça, liberdade e coletividade, sendo um grande exemplo de como é possível semear o pensamento crítico desde a infância. Os Saltimbancos demonstram como melodias lúdicas e simples podem carregar potentes conceitos e como transformações sociais podem ser feitas sem a utilização de violência ou discursos de ódio.



Referências:


LUIS BACALOV. Site oficial Luis Bacalov. S.l., [s.d.]. Disponível em: https://luisbacalov.com/. Acesso em: 1 dez. 2025.

Os Saltimbancos. A Galinha. YouTube. Disponível em: https://youtu.be/xWIT37lcfYI?si=TvyDV480DX11BeHH. Acesso em: 01 dez. 2025.

Os Saltimbancos. Bicharia. YouTube, 27 out. 2016. Disponível em: https://youtu.be/z7OAAPb6eQs. Acesso em: 01 dez. 2025.

Os Saltimbancos. História De Uma Gata. YouTube. Disponível em: 

Os Saltimbancos. O Jumento. YouTube. Disponível em: https://youtu.be/12cNiETGo0c. Acesso em: 01 dez. 2025.

RUFINO, Janaína de Assis. Entre homens e animais: análise semiótica de letras de canções infantis. Mal-Estar e Sociedade. Barbacena, ano 1, n. 1, p. 111-128, nov. 2008.

 
 
 

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