O Cientificismo e seus Limites: Uma Análise à Luz da Filosofia e das Ciências Humanas
- Maria Rita Luzan e Rafael Trevizan
- 11 de fev.
- 6 min de leitura
Os séculos XVII e XVIII foram palcos de diversas inovações e mudanças na sociedade europeia e, posteriormente, no mundo, especialmente no campo da tecnologia e das ciências, conhecida na época como Filosofia Natural. Nesse período, ocorreu a Revolução Científica, protagonizada por figuras centrais como Francis Bacon, René Descartes e Isaac Newton. Foi também o início da primeira revolução industrial. Todos esses fatores alteraram a perspectiva humana acerca do conhecimento, mas, acima de tudo, esse grande progresso na Ciência trouxe a ela um enorme prestígio (HUGHES, 1970).
A Física newtoniana foi a maior razão desse status e que ocorreu, sobretudo, nas ciências naturais. Suas descobertas revolucionaram a compreensão do mundo físico e, juntamente com os fatores anteriormente mencionados, mudaram a maneira de se entender e validar o que é o conhecimento. Nesse contexto, surgiu o cientificismo, o qual afirma que apenas o conhecimento oriundo das ciências naturais são legitimamente válidos (HUGHES, 1970; OLIVEIRA, 2018), além de que seus métodos são aplicáveis às demais áreas dos saber, de modo que elas são superiores a qualquer outra forma de conhecimento (HUGHES, 1970).
Cientificismo como Ideologia
O julgamento de que apenas as Ciências Naturais são as detentoras da verdade e de que qualquer outra área do conhecimento humano como a Filosofia, a Ética, a Política e até as Ciências Humanas, não produzem nada significativo não é uma decorrência lógica ou uma verdade estabelecida. Na realidade, trata-se de uma crença ideológica a qual, indevidamente, se esforça em inserir processos e métodos científicos em campos os quais os saberes naturais epistemologicamente são limitados a atuar. Essa constatação não é uma crítica a tais ciências, contudo, essas têm por objeto de estudo o mundo natural, ou seja, a matéria, a energia, os sistemas vivos e os fenômenos da natureza, de maneira que tudo que extrapola esse escopo legítimo de conhecimento e análise não tem como ser analisado pelo viés delas.
Nesse conceito, há a argumentação de que a realidade em si é formada somente pelo conhecimento de cunho naturalista, de modo que o que não está presente nessa abrangência, limitada pelo método científico natural, não é algo significativamente real, muitas vezes taxado como algo “subjetivo” ou “impreciso”, em uma conotação pejorativa. Contudo, no campo da ética, por exemplo, torturar uma criança, condenar uma população à fome ou exterminar uma etnia inteira no campo da moral é considerado extremamente negativo, porém, se ela supostamente não é válida, nada disso poderia ser taxado como ruim. Assim, mesmo para aqueles que possuem uma perspectiva relativista da ética e da moral, como um processo quase ou só associado à cultura e que não há uma ética correta em um sentido absoluto, de modo que essa se apresenta diferente em cada lugar, ainda assim continuam a discuti-las. Nessa concepção, existe a consideração de que a Filosofia da Moral e a discussão sobre o comportamento das sociedades, a partir de sua cultura, da Sociologia, da História e Psicologia é importante e é válida, de maneira que qualquer característica atribuída a ela posteriormente já é um estudo dela mesma e uma validação de sua legitimidade.
Críticas Filosóficas e Epistemológicas
Na Filosofia, existem diversos temas de investigação sérios e rigorosos que desafiam a premissa cientificista, entre eles os estudos de Política e Poder, Filosofia da Linguagem, Ontologia e Lógica. Um exemplo claro de crítica que, apesar de historicamente não ser endereçada explicitamente ao cientificismo, atinge as suas teses centrais é a “Crítica da Razão Pura”, formulada por Immanuel Kant. Em uma parte de sua obra, Kant faz a distinção entre fenômeno, aquilo que pode ser entendido da experiência sensível estruturada pelas condições do conhecimento, e númeno, a coisa em si (KANT, 2018). Ou seja, que o domínio das coisas que são reais diferem-se do domínio do que é cognoscível a partir da Ciência (ALLISON, 2004), já que esses não são integralmente iguais. Tal conceito derruba a ideia de que a realidade é somente o que se sabe em decorrência do método científico.
A lógica é outra que apesar de juntamente com a matemática ser elevada a um status semelhante a das ciências naturais é amplamente prejudicada por essa ideologia, visto que há uma tendência de reduzi-lá a algo meramente empírico. Um exemplo disso é o princípio lógico da indução o qual não pode ser demonstrado cientificamente nem com base em métodos empíricos, muito presentes nos saberes naturalistas. Nessa ótica, um suposto evento A que sempre após sua observação é precedido por um evento B, não necessariamente culmina em uma proposição “se A, então B”, visto que uma das possibilidades é que seja um início de uma série caótica de eventos As e Bs, os quais culminaram em ABABAB (CRAIG, 2014), logo a generalização indutiva não pode ser logicamente necessária ou demonstrada apenas por observações empíricas. Além desse ponto, o cientificismo, numa perspectiva lógica, apresenta no cerne de sua definição uma autocontradição, o que o torna autorrefutável. O cientificismo, como já foi discorrido, acredita que somente o conhecimento provado cientificamente, ou seja, passe pelo crivo do método científico é válido. Entretanto, essa premissa essencial do seu discurso, não pode ser provado com base nessa mesma metodologia, de forma que sua base fundamental é falaciosa em si mesma (CRAIG, 2014). Por razões como essa que a maior parte da Academia é contra o cientificismo com sua ideologia limitada e descabida, além de não o considerar como parte da Ciência.
Desdobramentos Práticos: Reducionismo Epidemiológico e Neutralidade Ilusória
As críticas ao cientificismo ganham concretude ao se analisarem seus impactos em campos aplicados. Dois exemplos elucidativos são o reducionismo epidemiológico e a crença numa neutralidade ilusória.
O reducionismo epidemiológico manifesta-se quando a complexidade de um fenômeno de saúde pública, que envolve inescapavelmente dimensões sociais, econômicas, culturais e políticas, é reduzida a uma explicação estritamente biológica ou bioestatística. Embora modelos biológicos e matemáticos sejam ferramentas essenciais, negligenciar os determinantes sociais da saúde (como desigualdade, acesso a serviços e condições de vida) resulta em intervenções ineficazes e socialmente injustas. A compreensão integral de uma epidemia exige, portanto, um diálogo interdisciplinar que supere os limites de uma abordagem estritamente científica.
Já a neutralidade ilusória refere-se à suposição infundada de que a prática científica é isenta de valores, juízos prévios ou contextos ideológicos. O cientificismo, ao postular a superioridade epistemológica do método científico, frequentemente mascara os valores subjacentes às escolhas do que pesquisar, de como interpretar os dados e para quem os resultados se destinam.
A análise desenvolvida demonstra que o cientificismo configura-se mais como uma postura ideológica do que como uma conclusão epistemológica sólida. Seu surgimento histórico está ligado ao prestígio das ciências naturais, mas a reflexão filosófica, Kant e as críticas lógicas contemporâneas, expõem suas contradições internas e seus limites constitutivos. Ao rejeitar a validade de formas de conhecimento não redutíveis ao método experimental, como a ética, a filosofia política e as humanidades, o cientificismo empobrece a compreensão da realidade em sua complexidade multifacetada.
Os exemplos do reducionismo epidemiológico e da neutralidade ilusória ilustram como essa visão pode gerar consequências práticas negativas, desde a formulação de políticas públicas ineficazes até a ocultação dos pressupostos valorativos que permeiam a própria atividade científica. Conclui-se, portanto, que o cientificismo não representa o ápice do pensamento racional, mas sim uma limitação a ser superada. O caminho para uma compreensão mais rica, justa e integral do mundo e da condição humana reside no fomento a um diálogo interdisciplinar genuíno, no qual diferentes metodologias e saberes possam contribuir de forma complementar e crítica.
Referência
ALLISON, Henry E. Kant’s transcendental idealism: an interpretation and defense. 2. ed. New Haven: Yale University Press, 2004. Disponível em: https://archive.org/details/professor-henry-e.-allison-kants-transcendental-idealism-an-interpretation-and-defense/mode/2up. Acesso em: 29 jan. 2026.
KANT, Immanuel. Crítica da razão pura. Tradução de Manuela Pinto dos Santos e Alexandre Fradique Morujão. 5. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 2018. Disponível em: https://www.ispsn.org/sites/default/files/documentos-virtuais/pdf/livro_-_immanuel_kant_-_a_critica_da_razao_pura.pdf. Acesso em: 29 jan. 2026.
HUGHES, H. Stuart. The origins of scientism. Daedalus, Cambridge, v. 99, n. 2, p. 469–486, 1970. Disponível em: https://www.jstor.org/stable/40982235?read-now=1&seq=8. Acesso em: 29 jan. 2026.
OFICINA DE FILOSOFIA. O mito do cientificismo: algumas anotações. Blog Oficina de Filosofia, 29 abr. 2013. Disponível em: https://oficina-de-filosofia.blogspot.com/2013/04/o-mito-do-cientificismo.html. Acesso em: 5 fev. 2026.
OLIVEIRA, Bruno César de. O problema do cientificismo. 2018. Tese (Doutorado em Filosofia) – Universidade Federal do Ceará, Fortaleza, 2018. Disponível em: https://repositorio.

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