O conceito do Oeste nas mitologias
- João P. L. Souza e João F. Callegari
- 20 de mai.
- 7 min de leitura
Desde cedo, o ser humano tem uma inquietação que é difícil de ignorar, a vontade de entender o mundo e o próprio ser. A filosofia nasce justamente desse impulso de nos perguntar o porquê de existirmos, o que é real, o que é certo e, inevitavelmente, o que acontece quando tudo acaba. O pensamento não é apenas uma atividade intelectual, mas uma necessidade quase instintiva de dar sentido à vida, de organizar o caos das experiências e das emoções. E no centro de todas essas questões, está sempre presente o tema da morte.
A morte não é apenas o fim biológico, mas um limite que dá forma à própria vida. É por sabermos que o tempo é finito que buscamos significado, que tentamos compreender o que vale a pena e o que não vale. Ao longo da História, diferentes culturas e pensadores tentaram encarar essa questão de frente, às vezes com medo, às vezes com aceitação, mas quase sempre com a mesma sensação: a de que existe algo além do que conseguimos ver.
É nesse ponto que surgem os símbolos (Campbell, 1988). Para lidar com aquilo que não conseguimos explicar completamente, criamos imagens e ideias que nos ajudam a pensar. Entre esses símbolos, o Oeste aparece com frequência como um lugar de passagem. É a direção onde o sol se põe todos os dias, marcando o fim de um ciclo. Por isso, em muitas tradições, o Oeste não representa apenas um ponto no espaço, mas um momento, de transição, de encerramento, e talvez de um começo que ainda não entendemos.
A concepção egípcia
Na visão do Antigo Egito, o Oeste não era apenas uma direção no mapa, mas um símbolo profundo ligado à morte e ao que vem depois dela. Isso está diretamente ligado ao movimento do sol: todos os dias ele nasce no leste, atravessa o céu e desaparece no Oeste. Para os egípcios, esse desaparecimento não era visto como um simples fim, mas como uma passagem, como se o sol estivesse entrando em outro mundo, invisível aos vivos. Todo esse processo era representado pelo deus Rá, que ao se pôr iniciava uma jornada pelo submundo, enfrentando forças do caos durante a noite, até conseguir renascer no dia seguinte. Esse ciclo reforçava uma ideia muito importante para os egípcios, de que a morte não era o fim absoluto, mas parte de um caminho contínuo, uma transição necessária entre um estado e outro. O Oeste, então, marcava esse momento de passagem, esse limite entre o mundo visível e o desconhecido.
Essa forma de pensar não ficava só no campo simbólico, mas influenciava diretamente a vida prática. As tumbas, pirâmides e grandes necrópoles eram construídas no lado oeste do Rio Nilo, justamente por ser considerado o território dos mortos. Havia também figuras associadas a esse lugar, como Amentet, que representava o Oeste como um espaço que acolhia as almas após a morte, quase como uma porta de entrada para outra realidade.
O Oeste, para os egípcios, carregava um significado duplo, sendo o fim da vida como ela é conhecida, mas também o começo de uma jornada no além. Ele não representava apenas o encerramento, mas um momento de transformação, seguindo o mesmo ciclo do sol que desaparece no horizonte, atravessa a escuridão e sempre retorna, trazendo a ideia de renovação e continuidade.
A concepção grega
Na mitologia da Grécia Antiga, o Oeste também estava ligado ao fim da vida e ao desconhecido, mas de uma forma um pouco mais imaginativa e menos “geográfica” do que no Egito. Para os gregos, o Oeste era visto como o lugar onde o mundo conhecido terminava, além do mar, onde o sol desaparecia todos os dias.
Esse ponto no horizonte era associado a regiões míticas e ao destino das almas. Um exemplo importante são os Campos Elísios, que ficavam, segundo algumas tradições, em uma terra distante a oeste. Lá, as almas dos heróis e dos justos viviam em paz, como uma espécie de recompensa após a morte. Ao mesmo tempo, o mundo dos mortos também estava ligado ao domínio de Hades, que governava o submundo para onde iam as almas.
Além disso, o Oeste aparecia em outros mitos como um lugar de fronteira e mistério. O Jardim das Hespérides, por exemplo, ficava no extremo oeste do mundo e guardava as maçãs douradas da imortalidade. Era um espaço distante, quase inacessível, que marcava o limite entre o mundo humano e o divino. O Oeste não era apenas o fim físico do dia, mas um símbolo do limite do mundo conhecido e da passagem para outras realidades. Ele reunia ideias de morte, recompensa, mistério e descoberta, funcionando como um ponto onde o visível terminava e o desconhecido começava.
A concepção celta
Assim como povos gregos e egípcios, os celtas também tiveram suas próprias interpretações quanto a fenômenos relacionados à vida e a morte e sua relação com o pôr do sol. Para entender o papel do Oeste na cultura dos antigos celtas, é necessário primeiro observar o conceito de morte na perspectiva deles. A morte não era vista como um fim absoluto, mas havia uma crença no pós vida, evidenciada por seus costumes funerários, que assim como os egípcios, tratavam isso como uma viagem, uma migração das almas, sugerindo que estas continuariam a viver em um outro plano etéreo.
Nas tradições irlandesas antigas, o destino dessas almas seria um "Outro Mundo", que ficava para além do mar, no Oeste, um lugar mítico idealizado como ilhas. Suas características, por sua vez, eram incrivelmente semelhantes aos Campos Elísios gregos, tendo sido chamado de "Terra dos Jovens" por ser um local intocado de qualquer mazela humana, com ausência de doenças, velhice, morte e com o estado de felicidade eterna. O tempo também é descrito de forma diferente, de forma que nestas terras, séculos poderiam ser meros dias.
Apesar de todas essas maravilhas, as ditas "Terras Jovens" não eram completamente acessíveis: a travessia oceânica para o Oeste, além do Sol, era reservada para poucos e somente grandes heróis poderiam viajar para lá. Os antigos contos, traduzidos durante a Idade Média, narram sobre grandes heróis que eram visitados por donzelas, que cantavam sobre as terras pacíficas além do Oeste e hipnotizavam os heróis. Os guerreiros, então, embarcavam navegando rumo ao pôr do sol, para serem recebidos pelas divindades, como Manannán ou Lugh.
A promessa da vida eterna dos celtas e sua relação com o oeste carrega uma melancolia fascinante, relacionando o mundo material imperfeito, problemático e cheio de dor, com o mundo transcendental, imortal e cujas leis não são comuns aos homens, de forma sutil e poderosa. Cada herói, ao decidir viajar para além dos mares, tinha que pesar sua decisão entre a beleza imortal e a depressão da separação, sendo exatamente dessa união que muitos conceitos póstumos sobre fantasia surgiram.
A influência das mitologias na arte e literatura contemporâneas
O primeiro passo para entender como conceitos mitológicos antigos servem de base e inspiração para muitas obras artísticas modernas é partir de uma premissa elementar: mitos não morrem, apenas trocam de forma. Dessa forma, é fácil relacionar histórias e eventos antigos a obras fictícias. Se repararmos bem, ao entrar em uma livraria ou biblioteca e ir até a seção de ficção, nos deparamos com um cenário não muito diferente de um egípcio que lia um papiro sobre Osíris ou de uma roda de conversa grega sobre a natureza. A mitologia não permanece estática, ela se molda de acordo com a imaginação e a cultura de cada povo.
Na literatura e na música, essa influência é onipresente, reinventando-se conforme a vontade e o repertório do autor. Obras como Percy Jackson, de Rick Riordan, ou Deuses Americanos, de Neil Gaiman, trazem divindades antigas para caminharem no asfalto moderno, mostrando como conceitos milenares de poder, vingança e destino ainda explicam a sociedade atual. Por outro lado, no gênero da alta fantasia, J.R.R. Tolkien fez mais do que simplesmente buscar figuras em contos antigos: a partir dos seus conhecimentos culturais, Tolkien moldou e criou todo um universo a partir de conceitos mitológicos e fez todos conversarem num mundo único, com suas próprias línguas e culturas.
Tratando do Legendarium de Tolkien e o seu conceito do oeste, na Terra-Média, a raça dos Elfos possui uma magia e um brilho próprio, relacionados a sua capacidade artesã e imortal, benção que foi dada a eles logo em sua criação. A Terra-Média, porém, é um lugar mortal e cíclico, com seu próprio ritmo de renovação, que difere da natureza dos Elfos. Estes então, iniciaram o que se chamou de "Marcha para o oeste", em que ao cruzar todo continente, eles embarcariam em navios e viajariam para além do oceano, em direção às Terras Imortais, um outro continente chamado Valinor, onde habitam as grandes entidades do universo de Tolkien, os Valar e os Maiar, equivalentes a deuses e semideuses de outras mitologias. No contexto dos livros e dos filmes, a Terra-Média estava sendo tomada pelo desejo e pela malícia de Sauron, um semideus que se rebelou contra a criação e desejava poder acima de todas as coisas, e a jornada dos elfos para o oeste se tornou sinônimo de salvação, buscando paz e ausência de decadência. Em suas obras, Tolkien destilou a melancolia celta, o fatalismo nórdico e a imortalidade dos gregos de forma única e atemporal, capaz de dialogar com qualquer pessoa de qualquer cultura.
A mesma fascinação por estes conceitos transborda da literatura para a música e para o cinema. O apelo místico dessa fronteira é imortalizado em versos icônicos, como no clássico Stairway to Heaven, do Led Zeppelin, evidenciado no trecho "There's a feeling i get / When i look to the West / And my spirit is crying for leaving", demonstrando a fascinação pela paz e pela viagem para um outro mundo. Mesmo no cinema, é comum em muitas obras termos um desfecho com o herói, solitário, que após cumprir seu dever, caminha perecendo em direção ao pôr do sol. Seja de forma funerária, metafórica, artística ou espiritual, o horizonte ocidental permanece intacto no imaginário humano. Ele não é apenas o lugar onde o sol se põe todos os dias, mas o símbolo universal da paz e o destino final para onde, no fim de toda grande jornada, ainda ansiamos viajar.
Refletir sobre o Oeste é, no fundo, refletir sobre esse movimento inevitável da vida em direção ao fim. Não como algo puramente negativo, mas como parte do próprio caminho humano, de pensar, existir e, eventualmente, partir.
Referências Bibliográficas
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Amei o texto! Muito bom.
esse texto ta mto bom.