OS PSICOPATAS ROMANTIZADOS PELA MÍDIA MASCULINA

Desde sua invenção no final do século XIX, o cinema consolidou-se como uma poderosa forma de manifestação cultural, capaz de unir imagem e movimento e criar no espectador a sensação de participação na realidade representada. Mais do que simples entretenimento, o cinema constrói significados, comportamentos e identidades, funcionando como um importante meio de influência social.
Ao longo do século XX, com o processo de industrialização da produção cinematográfica, o cinema passou a integrar a lógica da indústria cultural. Conforme apontam Theodor Adorno e Max Horkheimer (1985, p.134), a arte, nesse contexto, deixa de ser apenas expressão cultural e passa a assumir um caráter mercantil, sendo produzida com o objetivo de atender às demandas do mercado e gerar lucro. Nesse cenário, os filmes deixam de ser apenas narrativas artísticas e tornam-se produtos padronizados, moldados para agradar ao chamado “gosto médio”.
Essa padronização se manifesta, sobretudo, na consolidação de gêneros cinematográficos e de fórmulas narrativas repetitivas. Personagens, enredos e conflitos passam a seguir estruturas previsíveis, o que contribui para a construção e disseminação de estereótipos sociais. Entre esses estereótipos, destaca-se a representação da masculinidade, frequentemente associada a atributos como força, racionalidade, domínio emocional e poder.
O cinema hollywoodiano, especialmente a partir da difusão do chamado american way of life (Gonçalves, 1996, p.5), desempenhou papel fundamental na construção desse modelo de “homem ideal”. Os personagens masculinos eram frequentemente retratados como indivíduos que, ao enfrentarem dificuldades, reafirmavam valores morais, éticos e sociais associados a uma masculinidade normativa. Esse modelo, amplamente difundido, contribuiu para naturalizar certos comportamentos e expectativas em relação ao que significa “ser homem”.
Ao longo do texto, a autora mostra que o cinema construiu diferentes modelos de masculinidade em cada época: nos anos 1930–40, homens como Cary Grant representavam o ideal elegante, educado e sedutor. Nos anos 1950, o faroeste consolidou o homem patriota e corajoso, simbolizado por John Wayne, já nos anos 1960 surge o arquétipo do conquistador viril, exemplificado por James Bond, marcado por poder, mulheres e consumo. É uma figura que perpassa o tempo e continua influente até os dias atuais. Entretanto, entre as décadas de 70 e 90, predominam os heróis de ação musculosos e violentos, como Sylvester Stallone, que reforçam a ideia de frieza emocional e força física, em contraste, figuras como James Dean introduzem uma masculinidade mais sensível e emocional, abrindo caminho para visões mais complexas, até chegar ao cinema contemporâneo, que passa a questionar esses padrões e apresentar múltiplas formas de ser homem, incluindo críticas à masculinidade tóxica.

Sean Connery em 007, 1967. Foto: Getty Images. Fonte: AL-SAHLI, 2024.
Entretanto, alguns espectadores do cinema, especialmente homens, tendem a estabelecer uma identificação direta com personagens de filmes como O Cavaleiro das Trevas, Clube da Luta, Psicopata Americano, O Lobo de Wall Street, entre outros, frequentemente expressando a ideia de que esses protagonistas representam suas próprias experiências e visões de mundo. Essa identificação revela uma leitura errônea e superficial dessas narrativas, ignorando o caráter crítico presente na construção desses personagens.
Na realidade, tais figuras foram concebidas justamente para representar as masculinidades em crise, geralmente marcadas pelas fragilidades emocionais, frustrações profundas relacionadas ao feminino e fantasias de poder. Esses personagens em geral evidenciam uma incapacidade de lidar com inseguranças e contradições internas e externas, expondo comportamentos autodestrutivos e socialmente problemáticos.
Um exemplo disso é o Psicopata Americano, onde o protagonista Patrick Bateman não é um modelo a ser admirado, mas uma caricatura exagerada de um homem vazio, obcecado por aparência, riqueza e validação social, incapaz de estabelecer conexões reais. A violência e o narcisismo presentes no filme não são glorificados, mas expostos como sintomas de uma identidade frágil e artificial. A ironia está justamente no fato de que aquilo que deveria causar desconforto e crítica acaba sendo interpretado como estilo de vida por alguns espectadores, revelando como a crítica do filme à masculinidade tóxica pode ser facilmente ignorada por quem se reconhece nela. A diretora do filme, afirmou que os homens “não perceberam a “sátira de um homem gay sobre a masculinidade” (InfoMoney, 2025) e tomaram para si como uma figura a ser seguida, sendo mais um filme sobre a vaidade dos homens que uma vangloriação da figura masculina.

Personagem Patrick Bateman, 2000. Fonte: IFCENTER, 2026.
Já em O Cavaleiro das Trevas, o personagem Coringa é visto como símbolo de liberdade e rebeldia, o que leva algumas pessoas a se inspirarem nele de forma equivocada. No entanto, o personagem foi construído para representar o caos, o desajuste, a destruição e a ausência de valores, funcionando como um contraponto ao senso de justiça do Batman. A identificação acontece porque ele rejeita regras e expõe as falhas da sociedade, algo que pode atrair quem se sente frustrado com o mundo. O problema é que essa leitura ignora que suas ações são puramente destrutivas e complexas do personagem, o filme em si não glorifica o Coringa, mas usa sua figura para evidenciar os perigos de uma visão niilista e caótica da realidade. Contudo, muitos homens se identificam porque ele representa uma ruptura total com regras, expectativas e frustrações sociais que eles próprios sentem. Ele fala o que quer, desafia autoridades e parece não se importar com julgamentos, o que pode soar como uma forma de liberdade para quem se sente reprimido ou invisível.

Personagem Coringa, em The Dark Knight, 2008. Fonte: UKAT, 2024.
Em (500) Dias com ela presenciamos Tom Hansen que para muitos é frequentemente interpretado como um homem profundamente apaixonado pela garota “confusa” Summer Finn e enganado pela mesma, quando na realidade sua imagem é uma crítica aos homens que idealizam uma imagem ilusória da mulher e desejam moldá-la às próprias expectativas, tratando como posse. Tom não aceita o fato de Summer não se submeter à um relacionamento sério e continuar sendo uma mulher independente, que recusa suas projeções de desejos e expectativas amorosas. A postura tóxica de Tom passa despercebida devido à sutileza à qual o filme constrói sua narrativa, assim sendo frequentemente romantizado, exaltado e utilizado de identificação para o público masculino.
O filme retrata um tema recorrente em comédias românticas, mas trocando os papéis, aqui a parte frágil é o homem Tom “que ama demais” e a mulher com a posição que normalmente se é dada ao homem: livre, sem comprometimento e desapegada. Esta inversão rumina ódio e indignação à personagem Summer, visto que o sofrimento amoroso masculino causado por uma mulher é cruel e desumano, mas se a mesma posição vem de um homem é aceita e normalizada.

Personagens Tom Hansen e Summer Finn, 2009. Fonte: MONITOR 500, 2025.
O mesmo ocorre em Obsessão, Bear não consegue lidar com a rejeição de sua amiga Nikki e na tentativa de fazê-la o amar intensamente através de magia, transforma o amor em uma obsessão aterrorizante. Nikki destruída psicologicamente, perde o controle do próprio corpo e mente, aprisionada lutando para sair desse desejo, não tem outra escolha que não seja se entregar a Bear incondicionalmente. O desejo de Bear está acima das vontades e escolhas de Nikki, ele sequestrou sua própria consciência para que o ame de volta, um psicopata doentio e obsessivo. Não importa o sofrimento evidente da personagem, sua obsessão e carência falam mais alto.
Aqui a objetificação e posse da mulher “amada" foi elaborada mais conturbada sem intenções de romantizar o personagem e esse comportamento, apenas escancarar a problemática dessa ideia de obsessão do corpo feminino por parte dos homens que são incapazes de aceitar um “não” e podem chegar ao ponto de abusar da vítima, alegando que seja “amor”, assim como é mostrado no filme. Essa postura tóxica e manipuladora sempre foi e continua sendo disfarçada pelo cara romântico, sensível que só queria ser amado.

Personagem Bear e Nikki, 2026. Fonte: COELHO, 2026.
A problemática não está nos filmes ou na construção dos personagens, mas na interpretação de um público específico. As obras utilizam os personagens para criticar padrões masculinos marcados por instabilidade emocional, comportamentos violentos, misoginia e narcisismo. Frequentemente essas figuras masculinas complexas e emocionalmente instáveis são usadas como um exemplo a ser seguido, ou uma identificação com os personagens.
Entretanto, uma parte do público não compreende a crítica do filme a essa postura tóxica e perpetua os ideais representados, passam à idolatrar os personagens e usam as sátiras como modelos de admiração e estilo de vida. Isto resulta na construção de homens superficiais, egocêntricos e machistas, elevando o controle e objetificação do corpo feminino, no individualismo, narcisismo e instabilidade emocional.
O problema está na incapacidade de reconhecer a crítica, mesmo explícito o lado cruel e doentio da masculinidade. Esse grupo masculino apenas valida os mesmos comportamentos que eles próprios já perpetuavam. A ausência de senso crítico somada ao narcisismo favorece a reprodução de homens com atitudes superficiais, violentas, misóginas e ignorantes, reforçando padrões já previstos na sociedade.
Referências:
AL-SAHLI, Arwa. A look at the Western framed Japanese. Substack, [s.d.]. Disponível em: https://ruruas.substack.com/p/a-look-at-the-western-framed-japanese. Acesso em: 28 maio 2026.
IFCENTER. American Psycho, [s.d.]. Disponível em:https://www.ifccenter.com/films/american-psycho/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 28 maio 2026.
CAVALCANTE, Maria Isadora Silva. A disseminação da masculinidade tóxica em obras cinematográficas. Pedreiras: Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Maranhão (IFMA) – Campus Pedreiras, 2025. Disponível em: https://static.even3.com/anais/592306.pdf?v=638937211065590653. Acesso em: 11 jun. 2026.
OLIVEIRA, Mila. Cinema e a masculinidade. Medium, [s.d.]. Disponível em:https://medium.com/elesqueremepoder/cinema-e-a-masculinidade-88733c9c443c?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 25 maio 2026.
COELHO, Jonas. Crítica | Obsessão: justiça ao psicopata que Hollywood chamava de romântico. Cineset, 2026. Disponível em: https://cineset.com.br/critica-obsessao-2026/. Acesso em: 10 jul. 2026.
COELHO NETTO, José Teixeira. O que é indústria cultural. São Paulo, Brasiliense, 1980. p. 10-11. (Col. Primeiros Passos).
GONÇALVES, M. R. O cinema de Hollywood anos trinta, o american way of life e a sociedade brasileira. São Paulo: ECA/USP, 1996. (dissertação de mestrado).
MORRIS, Chis. Psicopata americano: sátira à masculinidade tóxica foi confundida com celebração. InfoMoney, [s.d.]. Disponível em: https://www.infomoney.com.br/business/global/psicopata-americano-satira-a-masculinidade-toxica-foi-confundida-com-celebracao/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 25 maio 2026.
UKAT. Heath Ledger’s Joker: a performance coloured by turmoil. [s.d.]. Disponível em:https://www.ukat.co.uk/blog/celebrity/heath-ledgers-joker-a-performance-coloured-by-turmoil/?utm_source=chatgpt.com. Acesso em: 28 maio 2026.
FERREIRA, João Gabriel. Monitor 500 dias com Ela: a realidade do amor além das expectativas. Centro de Crítica da Mídia, PUC Minas, 13 fev. 2025. Disponível em: https://blogfca.pucminas.br/ccm/500-dias-com-ela-a-realidade-do-amor-alem-das-expectativas/. Acesso em: 11 jun. 2026.

Adorei o semanal! Parabéns♥️
Que semanal excelente 👏🏻