Quem foi César Lattes?
- Nuria Criado Scarpin e Arão Victor Rocha dos Santos
- 27 de jan. de 2023
- 4 min de leitura
Atualizado: 29 de jan. de 2023
Cesare Mansueto Giulio Lattes, mais conhecido como César Lattes, nasceu em 11 de julho de 1924 na cidade de Curitiba (PR). Filho dos imigrantes italianos Giuseppe Lattes e Carolina Maroni Lattes, César foi um dos físicos mais ilustres e honrados do Brasil e seu trabalho tornou-se fundamental para o desenvolvimento da Física atômica.
Lattes realizou seus primeiros estudos em sua cidade natal e posteriormente partiu para São Paulo, onde estudou física e matemática, graduando-se na Universidade de São Paulo em 1943. Quatro anos depois começou sua principal linha de pesquisa: o estudo dos raios cósmicos, descobertos pelo físico estadunidense Carl David Anderson. Montou um laboratório a mais de cinco mil metros de altitude em Chacaltaya, uma montanha dos Andes na Bolívia, onde utilizou chapas fotográficas para registrar os raios cósmicos [1].
Mais tarde seguiu para a Inglaterra a fim de trabalhar no laboratório da Universidade de Bristol juntamente com o físico italiano Giuseppe Occhialini e com o físico britânico e diretor do laboratório, Cecil Frank Powell. Empregavam em suas pesquisas emulsões nucleares, que consistiam em uma série de emulsões fotográficas destinadas à fixação e observação da trajetória individual de partículas ionizantes. Foi após melhorar uma nova emulsão nuclear usada por Powell, sugerindo adicionar boro a ela, que em 1947 Lattes realizou, com a ajuda dessas chapas, uma grande descoberta experimental que constitui sua maior contribuição para o desenvolvimento da Ciência moderna: a de uma nova partícula atômica, o méson π, também conhecido como píon [2].
Ao revelar as novas chapas com boro, foram descobertos dois decaimentos do méson π em méson μ (múon). Essas descobertas foram relatadas em um artigo que os físicos desenvolveram para a revista Nature, intitulado "Processes involving charged mesons". No mesmo ano, Lattes foi responsável pelo cálculo da massa da nova partícula, que descreveu em um minucioso trabalho e um ano depois, trabalhando com Eugene H. Gardner na Universidade da Califórnia, detectou a produção artificial de partículas píon no cíclotron do laboratório, a partir do bombardeio de átomos de carbono com partículas alfa. Tinha então 24 anos de idade [3].
A descoberta do méson π foi de uma importância tal, que mereceu o Prêmio Nobel de Física em 1950. No entanto, embora Lattes tenha sido o principal pesquisador e primeiro autor do histórico artigo da Nature, descrevendo a nova partícula atómica, Cecil Powell foi o único agraciado com a láurea “pelo seu desenvolvimento de um método fotográfico de estudo dos processos nucleares e sua descoberta que levou ao descobrimento dos mésons”. O motivo desta negligência seria a política do Comitê do Nobel, que até 1960 era de premiar somente o líder do grupo de pesquisa. Entre 1949 e 1954, Lattes foi indicado pelo menos cinco vezes ao Nobel de Física.
Em 1949 Lattes voltou para o Brasil e tornou-se professor da Universidade de São Paulo. Assumiu também o cargo de professor e pesquisador na Universidade Federal do Rio de Janeiro e foi um dos fundadores do Centro Brasileiro de Pesquisas Físicas, instalado no Rio de Janeiro no mesmo ano, aos 25 anos de idade. Depois de outra breve estadia nos Estados Unidos (1955 a 1957), retornou ao Brasil e assumiu o cargo de diretor do Departamento de Física da Universidade de São Paulo. Também nesse ano, Lattes ingressou na Academia Brasileira de Ciências [4].
Após se mudar para Campinas em 1963, ajudou a fundar o Instituto de Física da Universidade Estadual de Campinas e quatro anos depois aceitou a posição de professor titular no novo Instituto "Gleb Wataghin" de Física da universidade e de diretor do Departamento de Raios Cósmicos, Altas Energias e Léptons. Em 1969, cientistas brasileiros e japoneses sob sua orientação descobriram a massa das chamadas “bolas de fogo”, um fenômeno espontâneo que ocorre durante colisões de altas energias, e que tinha sido detectado pela utilização das chapas de emulsão fotográfica nucleares inventadas por ele [5].
Lattes aposentou-se em 1986, quando recebeu o título de doutor honoris causa e professor emérito pela Universidade de Campinas. Faleceu nessa cidade no dia 8 de março de 2005 aos 80 anos de idade, vítima de uma parada cardíaca em decorrência de um câncer na bexiga e edema pulmonar. César Lattes é um dos mais destacados e homenageados físicos brasileiros e seu trabalho foi fundamental para o desenvolvimento da física atômica. Foi também um grande líder científico da física brasileira e uma das principais personalidades por trás da criação do importante Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) do Brasil. Por sua contribuição nesse processo, a Unicamp decidiu homenageá-lo denominando sua biblioteca central como "Biblioteca César Lattes". Além disso, o banco de dados científico nacional brasileiro, a Plataforma Lattes, também foi batizada em sua homenagem [6]. Lattes concedeu uma ultima e bem humorada entrevista à jornalista Tatiana Fávaro, em 2001, mostrando seu ceticismo epistemológico [7] e críticas a respeito da questão cosmológica.
REFERÊNCIAS:
[1] FRAZÃO, Dilva. Biografia de César Lattes. E-biografia, 18 mar. 2020. Disponível em <https://www.ebiografia.com/cesar_lattes/>. Acesso em 07 de Dezembro de 2022.
[2] Cesar Lattes. UNIFEI. Disponível em <https://unifei.edu.br/personalidades-do-muro/extensao/cesar-lattes/>. Acesso em 07 de Dezembro de 2022.
[3] César Lattes. Wikipedia, 15 nov. 2022. Disponível em <https://pt.wikipedia.org/wiki/C%C3%A9sar_Lattes>. Acesso em 07 de Dezembro de 2022.
[4] Breve Histórico de Cesar Lattes. WayBack Machine, 26 jan. 2021. Disponível em <https://web.archive.org/web/20050211174448/http://www.cbpf.br/Staff/Hist_Lat.html>. Acesso em 07 de Dezembro de 2022.
[5] Quem foi César Lattes? Biblioteca Central Cesar Lattes, 2017. Disponível em <https://www.bccl.unicamp.br/conheca-a-bccl/quem-foi-cesar-lattes/>. Acesso em 07 de Dezembro de 2022.
[6] CRISTIAN, Alan. César Lattes (1924 - 2005). GPET Física Unicentro, 16 jun. 2017. Disponível em <https://www3.unicentro.br/petfisica/2017/06/16/cesar-lattes-1924-2005/>. Acesso em 07 de Dezembro de 2022.
[7] FÁVARO, Tatiana. Uma conversa sobre a origem do universo com o emérito Cesar Lattes e Marcos Danhoni. Disponível em <https://www.unicamp.br/unicamp_hoje/jornalPDF/ju165.pdf/>, p. 10-11. Acesso em 18 de Dezembro de 2012.

Comentários