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Suicídio - Um problema existencial ou de políticas públicas?

  • Amanda V. R. Valer e Luís G. D. Piassa
  • há 10 horas
  • 9 min de leitura

“Só existe um problema filosófico realmente sério: o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à pergunta fundamental da filosofia”. (Camus, 2019, p.14). 


De fato, não há uma resposta clara, mas abdicar-se da vida não estava, por exemplo, nos planos de Galileu para defender uma verdade científica, preferiu-se assim, abjurar tranquilamente de suas ideias. Camus evidencia que saber se a Terra gira em torno do Sol ou vice-e-versa pouco importa diante da existência da vida. Contudo, pessoas morrem porque consideram que a vida não vale a pena ser vivida. É um dilema um tanto quanto complexo, uma vez que viver naturalmente, não é fácil. Dessa forma, no mundo moderno, as causas para tal ato são justificadas através de muita reflexão ou a sociedade tem impacto direto?

O problema do suícidio vêm sendo estudado e debatido por décadas: psicólogos, sociólogos, filósofos, médicos e outros profissionais da área das Ciências Humanas. Entretanto, é necessário evidenciar que o modelo de vida mudou muito desde a primeira Revolução Industrial. Muitos teóricos acreditam que estamos na quarta Revolução Industrial, onde o estilo de vida frenético e de altas exigências, sobretudo nas grandes cidades, têm potencializado uma desesperança diante da vida. A depressão, acarretada por essa desilusão, é tratada pela Organização Mundial da Saúde (OMS) como o "mal do século", assim como o estresse e a ansiedade, são algumas das doenças que têm afetado trabalhadores e trabalhadoras, podendo levar ao suicídio.

Segundo Marcuse (1967), na sociedade industrial desenvolvida prevalece uma certa falta de liberdade. Essa sociedade é irracional, uma vez que sua incessante produtividade impede o livre desenvolvimento das necessidades e faculdades humanas. Sendo assim, seu crescimento depende de um mecanismo de repressão. Assim, pensando o suicídio como um produto da sociedade e pensando a sociedade industrial como altamente repressora, torna-se de extrema relevância a produção de conhecimentos mais atualizados acerca das relações entre suicídio e liberdade.

Um exemplo disso, na literatura absurda de Franz Kafka, pode ser encontrado em sua obra "A Metamorfose" (1915). Trata-se da história de Gregor Samsa, um caixeiro-viajante que, ao acordar, vê-se transformado em um inseto gigante. Esse fato evidencia como a perda da capacidade laboral o torna desprovido de valor para a própria família, reduzindo-o à condição de um fardo. Isolado e desprezado, Gregor encontra a morte após ser negligenciado, numa narrativa que expõe a alienação, o peso das obrigações sociais e o processo de desumanização.


Figura 1 - A Realidade Social Contemporânea em 'A Metamorfose', de Franz Kafka. (Fonte: La Parola).


Nesse contexto, a perda de valor social torna-se determinante para o isolamento do indivíduo, que passa a ser relegado às margens da sociedade. Assim, quando alguém não produz ou não alcança os resultados esperados, deixa de ser valorizado pela lógica da sociedade industrial capitalista, orientada por desempenho, metas e quantificação. Kafka, por exemplo, acreditava que a raça humana era produto de um dos “dias ruins de Deus”, visto que não há “sentido” para dar sentido às nossas vidas, ainda mais em condições como a de Gregor que teve seu valor reduzido à inutilidade, mesmo cansado e transmutado sua maior preocupação era o trabalho.

A exemplo disso, no Brasil, os transtornos mentais relacionados ao ambiente de trabalho correspondem a cerca de 30,67% dos casos de afastamento laboral e concessão de auxílio-doença. Essa informação baseia-se em um levantamento realizado em 2017 pelo Ministério da Previdência. Contudo, não é um fenômeno restrito ao Brasil, o contexto japonês, analisa transtornos mentais associados à sobrecarga laboral a partir das noções de karoshi, morte decorrente do excesso de trabalho, e karojisatsu, que designa o suicídio motivado por condições laborais extremas. Tais conceitos evidenciam uma estrutura social e produtiva marcada por jornadas prolongadas, elevada exigência de desempenho e uma cultura organizacional que historicamente valoriza a dedicação quase integral do indivíduo à empresa.

Esse cenário está ligado a um modelo corporativo consolidado ao longo do século XX, no qual a lealdade institucional e o comprometimento contínuo foram incentivados, muitas vezes à custa da vida pessoal. Como consequência, não são raros os casos de trabalhadores submetidos a níveis intensos de estresse, privação de descanso e desgaste físico e psicológico. A pressão por resultados, associada ao receio de falhar ou não corresponder às expectativas hierárquicas, pode desencadear quadros de sofrimento psíquico significativo, incluindo transtornos de ansiedade e depressão.

Ademais, aspectos culturais desempenham papel relevante na manutenção desse quadro. A valorização da responsabilidade coletiva e a tendência à contenção emocional dificultam a externalização do sofrimento e a busca por apoio. Esse contexto contribui para a invisibilização de problemas relacionados à saúde mental, ainda permeados por estigmas, embora haja avanços recentes no debate público e institucional sobre o tema.


Figura 2 - Homem japonês dormindo no metrô após jornada exaustiva de trabalho. Fonte: BBC News Brasil.


Os dados são alarmantes, em escala global, estima-se que uma pessoa morra por suicídio a cada três segundos. De acordo com a Associação Psiquiátrica da América Latina, no Brasil ocorre um caso a cada 45 minutos. Além disso, o suicídio figura como a principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. O país ocupa a 8ª posição em números absolutos e a 113ª quando considerada a taxa proporcional à população mundial, embora haja indícios de subnotificação. Entre 2007 e 2016, dados do Ministério da Saúde apontam que 106.374 pessoas perderam a vida dessa maneira.

O suicidio ocorre por inúmeras razões, as interpretações do suícidio podem ser simplórias ou  mais profundas, mas tudo depende do observador, pois, no fim nunca dão o real peso e o real significado do sentimento da pessoa que realiza o ato, visto que se foi uma pessoa distante que cometeu, o pensamento se torna mais simples, mais banal, como se a pessoa que executou não fosse digna, que a pessoa fosse covarde ou  que as causas que a levaram a tomar essa decisão não representasse nada. Poucos, além de seus próximos sentem o peso de uma situação comum, e os que sentem é porque possuem alguém em seus comuns ou que a si mesmo, já passou por algo semelhante. As razões, nos seres humanos para tal ato, variam de questões extra existenciais, perpassando também pela dimensão emocional, sentimentos como: desespero, vergonha, culpa, medo e a sensação de ser um fardo para os outros figuram entre os estados afetivos que, quando prolongados e sem acolhimento, podem tornar o sofrimento insuportável. As motivações que atravessam o indivíduo são diversas, podendo ir desde questões de ordem existencial, como apontado por Albert Camus, ao discutir a ausência de sentido da vida, até fatores concretos e cotidianos, como situações de violência, assédio ou sofrimento psíquico prolongado. Nesse sentido, além da ausência de significado, pode-se considerar também o sentimento de esgotamento emocional, a solidão persistente, a sensação de não pertencimento e a incapacidade de vislumbrar alternativas diante da dor vivida. Trata-se, portanto, de um fenômeno que não se limita a uma única explicação, mas resulta da sobreposição de dimensões subjetivas e objetivas. 

Dessa forma, as seguintes tabelas exemplificam o que entre as dez maiores economias do mundo, as taxas de suicídio são muito diferentes. Os Estados Unidos aparecem no topo da lista com 16,1 mortes por 100 mil habitantes, de acordo com os dados da Organização Mundial da Saúde para 2019 . Um recorde que nenhum país deveria querer bater. Depois vêm Japão, com 15,3 por 100 mil, e França, com 13,8 . Na outra ponta, Itália e Brasil registram as menores taxas entre os dez, com 6,7 e 6,9 respectivamente.


Tabela 1 - Taxa de suicídio das dez maiores economias por ordem de maiores incidências. (Fonte: The Global Economy, 2019)


Tabela 2 - Comparação de suicídio entre gêneros em 2022. (Fonte: OMS, 2022).


O que os números mostram é que o PIB, sozinho, não explica nada. Explica fábricas e lucros, mas não explica por que um americano tem mais chance de se matar do que um italiano. A China, segunda maior economia do mundo, tem taxa de 8,1 por 100 mil . Um número relativamente baixo para os padrões globais, mas que esconde a subnotificação e é um grave problema entre jovens e mulheres no campo. A Índia, quinta maior economia, aparece com 12,7, um número bem mais alto, ligado a dívidas agrícolas, estigma social e falta de apoio psicológico. O Reino Unido, com 7,9, fica abaixo da média dos países ricos.

O que parece importar mais é o tecido social, o sentido ou a falta dele que uma sociedade oferece. Os Estados Unidos têm isolamento, armas em casa e uma cultura que cobra desempenho o tempo todo. O resultado está aí. Não é coincidência. É o preço de viver numa sociedade que mede o valor de uma pessoa pelo que ela produz. E quando ela pára de produzir, o resto a gente já sabe.

O Brasil, por sua vez, tem taxa de 6,9, uma das mais baixas entre os dez. Mas não por mérito. É que aqui a morte chega de outras formas antes. E isso nos leva a um ponto incômodo: muitas mulheres não se matam. São mortas. Pelos parceiros, pelo silêncio e pela negligência do próprio Estado, que é omisso não apenas em um caso, mas em diversos outros. Como nestes: 


Figura 3 - Montagem de manchetes sobre feminicídio no Brasil.

(Fonte: CNN Brasil e G1 Piracicaba, 2026).


Não são casos isolados. São casos que sempre retomam e tomam conta do noticiário porque seguem um padrão. O homem mata. Depois forja uma cena. Afirma que ela estava deprimida, que a vítima sofria, que já havia tentado antes. O laudo inicial, muitas vezes, aceita a versão. Com isso, a vítima vira, postumamente, uma histérica, e o assassino vira, temporariamente, um viúvo inconsolável. É só quando a família briga, quando a perícia é refeita, quando alguém insiste com força, que a farsa vem à tona. E quantas mulheres não ficam enterradas como "suicídio" para sempre? Muitas, milhares!!!!

Isso nos leva de volta à pergunta inicial. O suicídio é um problema existencial ou de políticas públicas? Para essas mulheres, não foi nenhum dos dois. Foi homicídio. E a tentativa de transformá-lo em suicídio não é apenas um truque forense. É um ato simbólico de controle que se estende para além da morte, pois a vítima sequer poderá escolher como sua história será contada.

Agora, um contraponto necessário. Se existe o suicídio forjado como homicídio, existe também o suicídio assistido como direito. Em países como Holanda, Canadá e Bélgica, a morte assistida é legalizada para pessoas com doenças terminais e sofrimento insuportável. Ali, o Estado reconhece que, em certos casos, interromper a própria vida pode ser um ato de dignidade, não de covardia. É o oposto do que acontece no Brasil, onde um homem mata sua companheira, forja um suicídio e a Justiça, muitas vezes, demora para desfazer a farsa. A diferença é brutal. De um lado, a morte como escolha consciente, amparada por protocolos médicos e jurídicos. De outro, a morte como violência, seguida de mentira e impunidade. O debate sobre o suicídio não pode ignorar essa linha tênue entre o direito de morrer e o crime de matar.

O suicídio, como se buscou demonstrar ao longo deste texto, não se encerra em uma única dimensão. Não é apenas uma crise filosófica do indivíduo diante da ausência de sentido, como propôs Camus, nem apenas uma falha de políticas públicas, embora ambas as perspectivas sejam legítimas e necessárias. É, antes, o produto de uma sobreposição: de um modelo social que esgota, de uma cultura que pune o fracasso, de um Estado que frequentemente se ausenta e, em alguns casos, de uma violência que se disfarça de desespero íntimo. Responder à pergunta do título, portanto, exige recusar a escolha entre uma coisa e outra. O suicídio é um problema existencial e de políticas públicas e, em muitos casos, de justiça. Enquanto a sociedade insistir em tratá-lo apenas como um drama individual e íntimo, continuará ignorando tudo aquilo que, silenciosamente, empurra pessoas para esse limite.




REFERÊNCIAS


CAMUS, Albert. O mito de Sísifo.  Trad. Ari Roitman e Paulina Watch. - 1. ed. - Rio de Janeiro : Record, 2019.


MARCUSE, Herbert. A ideologia da sociedade industrial. Trad. G. Rebuá. Rio de Janeiro: Zahar, 1967. 238p. (Publicado originalmente em 1964).


LAPAROLA. A metamorfose de Franz Kafka e a realidade social contemporânea. Disponível em: https://laparola.com.br/a-metamorfose-de-franz-kafka-a-realidade-social-contemporanea. Acesso em: 1 abr. 2026.


BBC NEWS BRASIL. Mortes por excesso de trabalho refletem desafios do Japão para mudar cultura de hora extra. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-38494915. Acesso em: 1 abr. 2026.


CENTRAL ÚNICA DOS TRABALHADORES (CUT). Depressão e suicídio a serviço do capitalismo. Disponível em: https://www.cut.org.br/noticias/depressao-e-suicidio-a-servico-do-capitalismo-572f. Acesso em: 2 abr. 2026.


FUNDAÇÃO JORGE DUPRAT FIGUEIREDO DE SEGURANÇA E MEDICINA DO TRABALHO (FUNDACENTRO). Seminário mostra a necessidade de se refletir sobre a relação entre suicídio e trabalho. 2024. Disponível em: https://www.gov.br/fundacentro/pt-br/comunicacao/noticias/noticias/2024/outubro/seminario-mostra-a-necessidade-de-se-refletir-sobre-a-relacao-entre-suicidio-e-trabalho. Acesso em: 5 abr. 2026.


YALE UNIVERSITY PRESS. The absurdity of existence: Franz Kafka and Albert Camus. 2015. Disponível em: https://yalebooks.yale.edu/2015/09/16/the-absurdity-of-existence-franz-kafka-and-albert-camus/. Acesso em: 5 abr. 2026.


SCIELO. [Título do artigo]. Disponível em: https://www.scielo.br/j/pcp/a/w8Nx48GCSQ8yJrfLVMySrfz/abstract/?lang=pt. Acesso em: 16 abr. 2026.

CNN BRASIL. Feminicídio: homem é preso após forjar suicídio de companheira no ABC. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/nacional/sudeste/sp/feminicidio-homem-e-preso-apos-forjar-suicidio-de-companheira-no-abc/. Acesso em: 16 abr. 2026.


G1. Ministra das Mulheres comenta prisão de tenente-coronel suspeito de matar esposa PM e tentar forjar suicídio. 2026. Disponível em: https://g1.globo.com/sp/piracicaba-regiao/noticia/2026/03/18/ministra-das-mulheres-comenta-prisao-de-tenente-coronel-suspeito-de-matar-esposa-pm-e-tentar-forjar-suicidio-que-seja-investigado-o-mais-rapido-possivel.ghtml. Acesso em: 16 abr. 2026.


ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE (WORLD HEALTH ORGANIZATION - WHO). Suicide and intentional self-harm per 100,000 (SDR, 25–64 years). Disponível em: https://gateway.euro.who.int/en/indicators/hfamdb_765-sdr-25-64-suicide-and-intentional-self-harm-per-100-000/#id=31303. Acesso em: 16 abr. 2026.



THE GLOBAL ECONOMY. Suicide rates – G20 countries. Disponível em: https://www.theglobaleconomy.com/rankings/suicides/G20/. Acesso em: 16 abr. 2026.



 
 
 

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